Há muitos jogos narrativos que prometem escolhas impactantes, mas poucos conseguem realmente fazer o jogador sentir que suas decisões ecoam além da própria campanha. Tides of Tomorrow é um desses casos raros. Desenvolvido pela DigixArt, estúdio conhecido por apostar em experiências narrativas diferenciadas, o jogo transforma a ideia de consequência em algo muito mais tangível: aqui, você literalmente caminha pelos rastros deixados por outros jogadores.
Misturando ficção científica, aventura em primeira pessoa e escolhas morais em um mundo devastado pela crise ambiental, Tides of Tomorrow constrói uma experiência que vai muito além de simplesmente contar uma boa história. Ele usa sua própria estrutura multiplayer assíncrona para reforçar seus temas sobre legado, responsabilidade e preservação — criando uma das propostas mais originais dos últimos tempos.

Mas será que essa ambição toda se traduz em uma experiência memorável? A resposta é, em grande parte, sim.
Um mundo inundado pelas consequências do passado
A Terra de Tides of Tomorrow não é apenas futurista — ela é um alerta.
Após séculos de negligência ambiental, o planeta foi tomado pelas águas. Restaram pequenas comunidades humanas espalhadas sobre estruturas improvisadas, ilhas artificiais e embarcações adaptadas para sobreviver em um oceano dominado por resíduos plásticos. O cenário é tão bonito quanto perturbador.

Plástico flutua por toda parte.
Ele está nas águas, nos céus, preso às construções e até nos corpos das pessoas.
Esse excesso tóxico originou uma doença chamada Plastemia, uma condição que lentamente transforma o organismo em matéria plástica colorida. Seu personagem sofre dessa condição, assim como praticamente todos ao redor. Para sobreviver, é necessário consumir regularmente uma substância chamada Ozen, um recurso raro que também funciona como sistema de cura.

Essa mecânica simples adiciona um peso constante à jornada. Cada dose usada em você é uma dose que talvez não possa ser entregue a alguém necessitado. Cada escolha envolve sobrevivência e altruísmo.
E o jogo faz questão de lembrar disso o tempo inteiro.
A mecânica que realmente muda tudo
O grande diferencial de Tides of Tomorrow está em sua proposta social.
Antes de iniciar cada missão, você escolhe seguir os passos de outro jogador que já completou aquela seção. Esse jogador anterior influencia diretamente o estado do mundo que você encontrará.
Se ele irritou uma autoridade local, guardas podem estar mais agressivos quando você chegar.
Se foi gentil ou diplomático, NPCs podem recebê-lo com respeito.
Se deixou recursos guardados, você poderá encontrá-los.

Se marcou emoções ou apontou segredos pelo caminho, esses sinais estarão lá para ajudá-lo.
Essa conexão acontece porque ambos pertencem aos chamados Tidewalkers, indivíduos capazes de enxergar memórias recentes uns dos outros. Isso permite observar ecos do jogador anterior: diálogos que ele teve, caminhos que percorreu, puzzles que resolveu.
É quase como jogar ao lado de um fantasma benevolente.
E funciona de forma brilhante.
Ao invés de um multiplayer tradicional competitivo ou cooperativo, Tides of Tomorrow aposta em uma espécie de solidariedade indireta. Você nunca encontra outra pessoa em tempo real, mas constantemente sente sua presença.
É uma ideia incrivelmente elegante.
Mais do que uma inovação técnica, essa mecânica reforça diretamente a mensagem principal do jogo: nossas ações afetam aqueles que vêm depois.
Escolhas que realmente carregam peso
Jogos de decisão frequentemente apresentam dilemas que parecem importantes, mas cujas consequências acabam sendo superficiais.
Aqui, isso muda.
Ozen, por exemplo, é limitado. Você precisa dele para se manter vivo, mas muitos personagens precisarão dessa substância desesperadamente. Em diversos momentos, doar significa colocar sua própria sobrevivência em risco.

E o jogo não suaviza isso.
É perfeitamente possível se aproximar da morte porque decidiu ajudar alguém.
Esse tipo de design conecta narrativa e mecânica de maneira extremamente inteligente. Você não apenas lê sobre escassez e sacrifício.
Você sente isso.
Outro elemento interessante é a possibilidade de deixar recursos para jogadores futuros em baús compartilhados. Na prática, isso significa abrir mão de itens úteis sem qualquer garantia de retorno.
Você nunca verá quem recebeu sua ajuda.
Talvez nunca saiba se fez diferença.
Mesmo assim, fazer esse gesto gera uma sensação genuína de contribuição — algo raro em videogames, especialmente em experiências conectadas.

Uma narrativa competente, mesmo sem ser extraordinária
Se existe um ponto em que Tides of Tomorrow não alcança o mesmo brilho de suas mecânicas, é justamente na narrativa principal.
Isso não significa que a história seja ruim.
Pelo contrário.
Os diálogos são bem escritos, os personagens possuem personalidade e o universo é intrigante. Há mistérios envolvendo os Tidewalkers, a origem da Plastemia e as estruturas de poder que dominam esse novo mundo aquático.
Mas emocionalmente, a trama raramente atinge momentos realmente devastadores ou inesquecíveis.
Você se interessa pelo que está acontecendo.
Você quer descobrir mais.
Só talvez não se conecte profundamente com tudo.
O grande mérito está menos na história contada e mais em como ela é contada.
As memórias de outros jogadores, os rastros deixados no ambiente e as consequências compartilhadas criam uma forma narrativa muito mais interessante do que o enredo principal isoladamente.
Gameplay variado, ainda que simples
Apesar do foco narrativo, Tides of Tomorrow oferece variedade suficiente para manter a experiência dinâmica.
Ao longo da campanha, você encontrará:
- exploração em primeira pessoa;
- diálogos com múltiplas escolhas;
- sequências de furtividade;
- perseguições;
- puzzles ambientais;
- desafios leves de plataforma;
- navegação marítima;
- combate simples em embarcações;
- exploração submarina.
Nada disso é particularmente revolucionário.
Os sistemas de stealth são básicos.
Os puzzles dificilmente desafiam demais.
O combate naval é funcional, mas limitado.
Ainda assim, o jogo sabe alternar essas atividades no ritmo certo, evitando que qualquer uma delas se torne cansativa.
Essa cadência ajuda bastante.
Você nunca fica tempo demais fazendo a mesma coisa.
Tudo parece servir à narrativa e ao universo, e isso basta.
Direção artística e ambientação impecáveis
Visualmente, Tides of Tomorrow é fascinante.
Existe uma beleza melancólica em seu mundo inundado.
As estruturas improvisadas feitas de lixo reciclado, o mar repleto de resíduos, a arquitetura moldada pelo plástico e os personagens parcialmente transformados pela Plastemia criam uma identidade visual muito forte.
É um cenário estranho.
Bonito.
Desconfortável.
Exatamente como deveria ser.
A trilha sonora também contribui muito para essa atmosfera contemplativa, alternando momentos de serenidade oceânica com tensão crescente durante decisões mais difíceis ou situações de perigo.
A imersão é um dos pontos altos do jogo.
Uma poderosa mensagem sobre legado
O que realmente faz Tides of Tomorrow se destacar é sua capacidade de usar videogame como linguagem.
Sua principal mensagem é simples:
preservar o mundo importa porque alguém virá depois de você.
Mas ao invés de apenas dizer isso, o jogo faz você viver essa ideia.
Você recebe ajuda de desconhecidos.
Você encontra presentes deixados por outras pessoas.
Você enxerga consequências de escolhas que não foram suas.
E, inevitavelmente, começa a pensar em como quer impactar quem virá depois.
Esse sentimento transforma pequenas ações em algo surpreendentemente significativo.
Poucos jogos conseguem alinhar tema, mecânica e emoção de forma tão natural.
Vale a pena?
Sem dúvida.
Tides of Tomorrow talvez não tenha a história mais marcante do gênero nem os sistemas de gameplay mais refinados do mercado, mas sua proposta é tão criativa e bem executada que isso se torna secundário.
É uma experiência sobre empatia.
Sobre responsabilidade.
Sobre deixar algo melhor para quem vier depois.
E faz isso usando ferramentas que apenas videogames conseguem oferecer.
Ao transformar outros jogadores em parte essencial da narrativa, a DigixArt cria algo raro: um jogo em que desconhecidos podem genuinamente melhorar sua jornada.
E talvez você queira fazer o mesmo por alguém.
Prós
✓ Mecânica multiplayer assíncrona extremamente original
✓ Excelente integração entre narrativa e gameplay
✓ Mundo fascinante e visualmente marcante
✓ Escolhas morais realmente impactantes
✓ Forte mensagem ambiental e social
Contras
✗ História principal menos marcante do que seu conceito
✗ Mecânicas de stealth e combate bastante simples
✗ Alguns puzzles poderiam ser mais elaborados
✗ Conexão emocional com personagens poderia ser mais profunda
Veredito Final
Tides of Tomorrow é uma das experiências narrativas mais criativas dos últimos anos. Mesmo sem reinventar seus sistemas básicos de gameplay, ele entrega algo muito mais valioso: uma reflexão poderosa sobre como nossas escolhas moldam o futuro dos outros. Um jogo que prova, mais uma vez, como videogames podem contar histórias de maneiras únicas.
Plataformas disponíveis: PC, PlayStation 5 e Xbox Series X|S.
Review realizado com key cedida para análise.