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Review | Disciples: Domination

Desde o lançamento do primeiro jogo da franquia, no longínquo ano de 1999, a série Disciples deixou claro que sua proposta nunca foi apenas replicar a fórmula tradicional dos jogos de estratégia por turnos. A franquia sempre buscou adaptá-la a um público que anseia por desafios táticos, sem jamais abrir mão de uma narrativa densa, personagens marcantes e um mundo que reage às suas escolhas.

Disciples: Domination parte exatamente desse ponto e dá um passo ainda mais ousado. Servindo como uma sequência direta para Disciples: Liberation (2021), o jogo decide se reinventar na forma de conduzir sua campanha: ao invés de focar puramente em batalhas intermináveis e avanço territorial cego, o título coloca a história, a diplomacia e a construção de mundo no centro absoluto da experiência.

O resultado é um RPG de estratégia e ação que surpreende pela forma como envolve o jogador emocionalmente e politicamente. Domination é menos sobre recrutar exércitos genéricos para sofrer em combates exaustivos, e muito mais sobre entender um império em colapso, tomar decisões moralmente difíceis e conviver com o peso implacável de usar uma coroa.


Uma narrativa ambiciosa sobre um império fraturado

A história de Disciples: Domination começa de forma melancólica e urgente — e isso é o seu maior acerto narrativo. O jogo mergulha o jogador de volta ao mundo de Nevendaar, exatamente quinze anos após a Imperatriz Avyanna consolidar o seu reinado no título anterior. No entanto, o “felizes para sempre” passa longe daqui. Uma corrupção sobrenatural e rasteira começou a devorar as bordas do continente, jogando o reino mais uma vez à beira do caos.

As múltiplas facções que habitam este universo — o Império Humano, a caótica Legião dos Amaldiçoados, a macabra Horda dos Mortos-Vivos, os Elfos e os resilientes Clãs das Montanhas dos Anões — voltaram a se estranhar. O tecido social está ruindo. É nesse cenário que Avyanna precisa sacudir a poeira do trono, abandonar o isolamento de seu castelo e voltar às linhas de frente.

E se você está se perguntando se precisa ter jogado Liberation para entender este cenário político complexo, a resposta é tranquilizadora: não. O jogo faz um trabalho magistral de contextualização através de cinemáticas de altíssima qualidade e diálogos bem escritos. Em poucos minutos, o jogador entende perfeitamente quem é quem, o que está em jogo e por que a diplomacia falhou.

Mundo aberto e a urgência da exploração

Diferente da rigidez de muitos jogos táticos antigos, Disciples: Domination aposta em um mundo significativamente mais amplo e menos dependente de menus estáticos. O mapa (overworld) é explorado em tempo real, e a navegação flui com a naturalidade de um RPG de ação isométrica ou de um hack-and-slash.

O progresso da campanha depende intimamente da sua curiosidade. No controle de Avyanna e seu grupo, você percorre florestas sombrias, ruínas ancestrais e acampamentos hostis. Explorar não serve apenas para encontrar baús com recursos preciosos ou ouro; serve, primariamente, para encontrar e recrutar novos companheiros de jornada.

Esses NPCs são figuras centrais na narrativa, cada um carregando seus próprios dilemas, missões secundárias e, o mais importante: suas próprias tropas. Um companheiro bem posicionado em seu grupo não apenas enriquece os diálogos durante as viagens, mas traz para o seu exército unidades exclusivas que podem mudar o rumo de uma guerra iminente.

Combate acessível, mas profundamente estratégico

Quando as palavras falham e as espadas são sacadas, o jogo transita para a sua segunda camada: o combate por turnos em grades hexagonais. O combate de Disciples: Domination certamente agradará os veteranos, mantendo elementos clássicos do gênero, mas reduzindo drasticamente a curva de frustração para os novatos.

Na prática, o jogo é consideravelmente dinâmico. O campo de batalha não é apenas um tabuleiro vazio; ele é vivo. Estruturas podem ser derrubadas para bloquear passagens, elementos naturais podem ser usados como cobertura e itens mágicos podem ser coletados no meio do embate para curar aliados ou penalizar inimigos. O gerenciamento da retaguarda (backline) é vital para sobreviver aos confrontos mais longos.

Para adicionar ainda mais profundidade, temos o sistema de progressão da própria Imperatriz. Avyanna pode evoluir através de quatro árvores de classes distintas: Warmaster (focada em dano físico e liderança), Primordial Ruler (controle de campo), Holy Regent (suporte e defesa) e Witch Queen (dano mágico devastador). Essa flexibilidade permite que o jogador molde a protagonista de acordo com o seu estilo de jogo.

A fina arte de fazer (e perder) amigos

O terceiro e último grande pilar mecânico de Domination é o seu sistema de diplomacia. Como líder de Nevendaar, você não pode simplesmente resolver tudo na base da violência — ou até pode, mas arcará com as consequências.

Durante a campanha, você será forçado a mediar conflitos entre as raças. Favorecer os Elfos em uma disputa de fronteira pode garantir a você acesso a arqueiros de elite, mas enfurecerá os Anões, fechando as portas do comércio de minérios. Cada aperto de mão é também uma declaração velada de inimizade contra outra pessoa. Essas decisões afetam diretamente o arco narrativo e culminam em múltiplos finais diferentes.

Fantasia sombria em sua melhor forma

Esteticamente, o jogo brilha. Ele mergulha na fantasia sombria (dark fantasy) sem nunca se tornar visualmente monótono ou exageradamente grotesco. Há uma elegância macabra no design das criaturas e uma imponência palpável nas armaduras. Os efeitos de magia durante os combates iluminam o cenário e dão um peso real a cada turno executado.

Contudo, nem tudo é perfeito na apresentação. A dublagem em inglês divide opiniões. A direção de voz optou por dar a Avyanna um tom extremamente casual na tentativa de humanizá-la. O problema é que ela soa muito mais como uma adolescente insegura do que como uma Imperatriz endurecida por 15 anos de reinado em um mundo implacável, quebrando a imersão em momentos chave.

Por outro lado, no aspecto técnico, o título entrega uma otimização elogiável. Com suporte total e muito bem mapeado para controles e uma vasta gama de opções de acessibilidade, a experiência flui sem engasgos notáveis, provando que o motor gráfico está mais do que maduro.

Considerações finais

Disciples: Domination não tenta ser o jogo de estratégia mais difícil do mercado, nem o mais técnico. Sua força está em construir um universo crível, personagens bem desenvolvidos e na forma como dá ao jogador a liberdade para vivenciar a política e a guerra em seus próprios termos.

Embora algumas decisões de design sonoro pareçam desconectadas da gravidade da história, o núcleo mecânico funciona maravilhosamente bem. O jogo pode não agradar aos puristas mais hardcore do gênero, mas entrega uma experiência incrivelmente rica, densa e surpreendentemente madura para quem ama RPGs.

É uma evolução clara da franquia, que encontra identidade própria ao focar naquilo que faz de melhor: contar uma excelente história sobre poder e sacrifício.


Pontos positivos

  • Narrativa envolvente, madura e cheia de ramificações diplomáticas que levam a múltiplos finais
  • Combate acessível e dinâmico, com cenários interativos que incentivam o pensamento tático
  • Mundo aberto em tempo real que quebra a monotonia dos menus e recompensa a exploração
  • Sistemas de progressão flexíveis (4 classes) que permitem grande personalização do estilo de jogo
  • Direção de arte belíssima, com ambientes detalhados e animações de combate marcantes

Pontos negativos

  • A dublagem da Imperatriz Avyanna carece da autoridade esperada de uma monarca veterana
  • Em campanhas muito longas, o ciclo de exploração e combate pode começar a parecer repetitivo
  • A curva de dificuldade branda nas etapas finais pode desagradar jogadores mais hardcore do gênero

Disciples: Domination entrega uma experiência sólida e memorável, apostando muito mais em peso político, construção de mundo e escolhas do que em punição tática extrema.

Plataformas: PC, PlayStation 5 e Xbox Series X|S Key cedida para análise

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