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Review | Scott Pilgrim EX

A franquia Scott Pilgrim é o tipo raro de obra que se recusa a envelhecer. Nascida nas páginas dos quadrinhos nos anos 2000 pelas mãos de Brian Lee O’Malley, a série rapidamente se consolidou como uma das maiores e mais sinceras cartas de amor à cultura pop, aos videogames clássicos e à angústia da juventude. De lá para cá, o universo se expandiu para um filme cultuado (dirigido por Edgar Wright), um excelente jogo da Ubisoft e, mais recentemente, a aclamada animação Scott Pilgrim Takes Off na Netflix.

Mas a jornada de Scott, Ramona e sua trupe estava longe de terminar. Pegando carona no sucesso estrondoso do anime, fomos agraciados com o anúncio de Scott Pilgrim EX, desenvolvido pela Tribute Games — o estúdio que já provou ser mestre na arte da pancadaria retrô com Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge e Marvel Cosmic Invasion.

Lançado hoje, dia 3 de março, para PlayStation, Xbox Series, Nintendo Switch e PC, o jogo promete ser a experiência definitiva para os fãs. O 240pixels teve a oportunidade de desbravar essa nova aventura antecipadamente, e abaixo você confere a nossa análise completa e aprofundada sobre este que já desponta como um dos títulos mais divertidos do ano.


O mestre do Beat ‘em Up moderno

Se olharmos para o histórico da Tribute Games, a escolha do gênero beat ‘em up (o clássico jogo de briga de rua) para Scott Pilgrim EX era mais do que esperada. No entanto, o que surpreende aqui não é a escolha do formato, mas sim o refinamento alcançado. O gênero costuma sofrer com o estigma de se tornar repetitivo rapidamente, mas a desenvolvedora conseguiu injetar uma dose de originalidade e caos que mantém o frescor do início ao fim.

A base do combate é sólida e familiar: você possui ataques rápidos, golpes fortes e opções de agarrão. A magia, contudo, acontece na interação com o cenário. As arenas de combate estão absolutamente lotadas de armas improvisadas que podem ser coletadas, golpeadas ou arremessadas. E é aqui que o jogo brilha com sua física caótica: um taco de beisebol arremessado pode derrubar um inimigo, que por sua vez esbarra em uma lixeira, que explode e atinge outro grupo, criando um “efeito dominó” hilário e devastador. É um sistema que frequentemente salva sua vida no último segundo, mas que também exige cuidado, pois o feitiço pode facilmente virar contra o feiticeiro.

Um Smash Bros. em forma de briga de rua

Um dos maiores triunfos de Scott Pilgrim EX é o tamanho e a diversidade do seu elenco. O jogo não economiza no fan service, funcionando quase como uma celebração absoluta de tudo o que a franquia já produziu.

Temos à disposição 7 personagens jogáveis logo de cara. Além dos óbvios Scott e Ramona, o jogo permite controlar antigos vilões como os ex-namorados do mal Matthew Patel e Lucas Lee, e até mesmo o carismático Robot-01 (que roubou a cena no gibi e no recente anime). Cada lutador foi desenhado com um estilo de jogo incrivelmente distinto, garantindo que a experiência mude drasticamente dependendo de quem você escolhe controlar.

Para complementar esse elenco, o título introduz um vasto sistema de assistências e golpes especiais. Personagens secundários icônicos podem ser invocados rapidamente na tela para desferir um ataque específico ou conceder bônus temporários. É uma solução inteligente de game design para garantir que todo o vasto universo da série marque presença na tela, mesmo que não seja de forma totalmente controlável.

Toronto como você nunca viu (e a liberdade do mapa)

Diferente do jogo clássico da Ubisoft e de 90% dos beat ‘em ups do mercado, Scott Pilgrim EX abandona a estrutura linear de “Fase 1, Fase 2, Chefão” em prol de um mapa aberto. Toronto não é apenas um pano de fundo, mas um mundo interconectado onde você precisa viajar de uma região a outra para cumprir missões principais e secundárias.

Essa exploração é recheada de minigames (embora a maioria acabe se resumindo a variações de combate) e referências fantásticas à cultura pop dos anos 2000. Porém, o verdadeiro espetáculo visual acontece quando o jogo decide chutar o balde da realidade. Por motivos narrativos, você não lutará apenas nas ruas nevadas do Canadá. O mapa se expande para um verdadeiro multiverso estético, transportando os combates para a Era do Gelo, castelos vampirescos dominados por góticos, fábricas de robôs futuristas e até mundos medievais. É uma montanha-russa visual que impede que o jogo caia na monotonia de cenários urbanos repetitivos.

Evolução RPG e a economia da sobrevivência

A progressão estilo RPG, marca registrada do primeiro game, retorna ainda mais robusta. Derrotar inimigos rende moedas que movem a economia local. Você não acumulará fortunas simplesmente porque gastar o seu dinheiro é vital para a sobrevivência.

As lojas espalhadas pelo mapa vendem desde acessórios que aumentam passivamente seus atributos defensivos e ofensivos, até novas invocações de assistência. Além disso, a clássica mecânica de entrar em restaurantes para comprar comidas (que recuperam a saúde imediatamente e também concedem bônus permanentes de status) continua viciante. Ficar forte é necessário, pois os inimigos não dão trégua.

O jogo faz um excelente trabalho em variar os adversários. Os clãs dos Veganos, Demônios e Robôs dominam áreas diferentes da cidade e possuem padrões de ataque e comportamentos totalmente únicos, exigindo abordagens táticas diferentes a cada nova zona explorada.

E por falar em tática, os chefes de Scott Pilgrim EX merecem um parágrafo à parte. Esqueça a ideia de apenas esmagar botões até a barra de vida do inimigo zerar. Os confrontos contra os chefões (sejam eles releituras de inimigos clássicos ou rostos inéditos) são complexos, cheios de fases diferentes e exigem leitura de movimentos, punindo severamente quem tenta jogar no modo “piloto automático”.

Narrativa original, caos cooperativo e pequenos tropeços

Na parte narrativa, o jogo traz um peso pesado: a história é assinada pelo próprio criador da obra, Brian Lee O’Malley. Posicionada como uma “sequência não oficial” do anime Takes Off, a trama é uma bagunça deliciosa e independente que brinca com os próprios conceitos do multiverso da série. Há até recontagens hilárias de arcos cruciais dos quadrinhos.

Contudo, é preciso deixar claro: o jogo não vai pegar na sua mão. Ele pressupõe que você já é fã e entende a dinâmica e o histórico desses personagens. Não espere um desenvolvimento de personagens profundo como o visto nas HQs originais; a trama aqui serve como um veículo ágil e engraçado para justificar a pancadaria ininterrupta.

Outro ponto que exige atenção é o balanceamento da dificuldade. Scott Pilgrim EX foi inegavelmente construído com o multiplayer em mente. Jogar cooperativamente com até 4 amigos na mesma tela é uma das experiências mais divertidas e caóticas da geração. No entanto, se você decidir jogar a campanha inteiramente sozinho (solo), prepare-se para passar raiva. O jogo pode ser brutalmente punitivo para apenas um jogador, mesmo na dificuldade padrão.

Além disso, uma decisão de design bastante questionável limita a liberdade do jogador: o modo história não permite que você troque de personagem livremente durante o progresso. Se quiser testar outro herói, precisará reiniciar a campanha. É um gargalo frustrante em um jogo com um elenco tão rico, e esperamos que a Tribute Games lance uma atualização corrigindo isso no futuro.

A cereja do bolo: Audiovisual primoroso

A direção de arte em pixel art é espetacular. Ela traduz os traços de O’Malley com uma fluidez impressionante, usando cores vibrantes, explosões que preenchem a tela e efeitos visuais que vão muito além do que esperamos de jogos de escopo menor.

E o som… ah, o som. A trilha sonora marca o retorno triunfal da banda Anamanaguchi, responsável pelas músicas do primeiro jogo e do anime. A mistura de rock alternativo com sintetizadores e efeitos de chips antigos de videogame (chiptune) nunca esteve tão refinada. As faixas fogem do lugar-comum e se adaptam perfeitamente à loucura de cada novo cenário, elevando a adrenalina de cada combate ao máximo. Para melhorar ainda mais, o título chega com localização total em português do Brasil (textos e menus), garantindo que nenhuma piada se perca na tradução.

Considerações finais

Scott Pilgrim EX não é perfeito, esbarrando em algumas limitações técnicas na troca de personagens e em uma dificuldade punitiva para os lobos solitários. Contudo, esses detalhes se apequenam diante da grandiosidade da obra.

A Tribute Games entregou mais do que um simples jogo de luta; entregou um festival comemorativo vibrante. É uma experiência densa, recheada de segredos, com uma trilha sonora memorável e um combate viciante que te prende por horas. Se você estava com saudade da energia caótica dessa Toronto bizarra ou se apenas busca um multiplayer excelente para reunir os amigos no sofá, este jogo é uma recomendação absoluta.


Pontos positivos

  • Jogabilidade caótica, responsiva e incrivelmente divertida, com destaque para a física das armas.
  • Mundo aberto em Toronto substitui fases lineares e adiciona ambientes fantásticos (Era do Gelo, cenários medievais, etc.).
  • Elenco robusto com 7 personagens jogáveis bem diferentes entre si, além de dezenas de assistências.
  • Inimigos com inteligência artificial variada e batalhas contra chefes épicas e estratégicas.
  • Trilha sonora magistral composta pela banda Anamanaguchi, que dita perfeitamente o ritmo da ação.
  • Totalmente localizado em português do Brasil.
  • O modo cooperativo para até 4 jogadores é uma das melhores experiências do gênero na atualidade.

Pontos negativos

  • Jogar sozinho pode ser uma experiência excessivamente frustrante e desbalanceada na dificuldade padrão.
  • Impossibilidade de trocar de personagem livremente durante a campanha sem precisar reiniciar o modo história.
  • A narrativa, embora engraçada, não aprofunda o desenvolvimento dos personagens como em outras mídias da franquia.

Scott Pilgrim EX consolida a Tribute Games como mestre do gênero, entregando uma carta de amor interativa que os fãs jamais esquecerão.

Plataformas: PC, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch A key de Scott Pilgrim EX foi gentilmente cedida pela publisher para a realização desta análise.

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