Playstation Reviews Xbox

Review | Ereban: Shadow Legacy – O balé furtivo nas sombras corporativas

O gênero stealth (furtividade) vive um hiato doloroso na indústria de videogames. Com as franquias gigantescas do passado adormecidas, quem carrega a tocha da arte de se esgueirar pelas costas dos inimigos hoje são os estúdios independentes. E é exatamente nesse cenário de escassez que a Baby Robot Games apresenta o seu título de estreia: Ereban: Shadow Legacy.

A genialidade do Mergulho Sombrio

A premissa narrativa coloca você no controle de Ayana, a última descendente de uma raça esquecida conhecida como Ereban. O seu povo detinha o domínio místico sobre a escuridão, e o seu objetivo é desvendar o que aconteceu com a sua espécie enquanto investiga a Helios — uma megacorporação de energia amoral que governa o que restou de um universo à beira do colapso.

O que diferencia Ereban: Shadow Legacy de qualquer outro jogo furtivo tradicional é o seu poder central: o Shadow Merge (Mergulho nas Sombras). Se você já jogou Splatoon, a lógica espacial aqui é semelhante, mas voltada para a furtividade. Ayana não apenas se esconde no escuro; ela literalmente afunda e se transforma em uma poça bidimensional de trevas, podendo deslizar pelas paredes, pisos e tetos a velocidades altíssimas, desde que a superfície esteja envolta em sombras.

Essa mecânica muda completamente a forma como você enxerga o level design. Um grupo de guardas robóticos patrulhando uma porta blindada deixa de ser um bloqueio irritante quando você percebe que a sombra de uma tubulação na parede permite que você mergulhe, passe por cima deles e saia ilesa pelo outro lado. O jogo se transforma em um quebra-cabeça visual onde a luz é uma barreira física intransponível (ela expulsa Ayana das sombras instantaneamente) e a escuridão é o seu parquinho de diversões.

Dilemas morais e o peso do Legado

Outro acerto monumental do jogo é dar ao jogador total liberdade sobre como abordar os conflitos. Ayana é letal, e você pode usar o seu domínio sombrio para assassinar brutalmente os androides da Helios que entram no seu caminho. No entanto, o jogo rastreia a sua letalidade.

Há uma discussão moral constante sobre se a vingança justifica o derramamento de “óleo” de seres criados para obedecer. Optar por um caminho pacífico — usando gadgets de alta tecnologia, como radares e granadas de cegueira, além de reflexos ágeis para contornar os inimigos sem disparar alarmes — é incrivelmente recompensador. No final de cada área, o seu desempenho é avaliado, influenciando não apenas a quantidade de recursos que você ganha para desbloquear novas habilidades, mas também as nuances de como a história se desenrola no final.

A progressão de habilidades é enxuta e funcional, permitindo aprimorar o seu radar, ganhar mais agilidade no mergulho ou melhorar os seus apetrechos de sabotagem. Você não fica sobrecarregado com menus de atributos, o que mantém o ritmo focado no que importa: a navegação.

A fluidez esbarra na rigidez tática

Apesar da premissa excelente, o título não está isento de tropeços. Enquanto o Shadow Merge é brilhante quando funciona, as seções de plataforma tradicionais sofrem de uma leve rigidez. Quando Ayana está na sua forma física, os saltos não parecem tão polidos e precisos quanto a navegação nas sombras, gerando algumas mortes frustrantes em abismos ou plataformas pequenas.

Além disso, a Inteligência Artificial (IA) dos inimigos muitas vezes oscila entre a cegueira absurda (ignorando você a dois metros de distância) e uma percepção quase divina (percebendo o seu movimento de costas, através de coberturas leves). Essa inconsistência pode forçar o jogador a adotar a velha tática de “tentativa e erro”, o que tira um pouco do brilho da improvisação que o jogo tanto incentiva.

A transição para a tela da sala

A chegada aos consoles de nova geração fez muito bem ao jogo. Jogar Ereban: Shadow Legacy com um controle nas mãos parece ser a forma definitiva de se aproveitar a fluidez dos movimentos. A otimização para a televisão é sólida, mantendo uma taxa de quadros (framerate) estável mesmo em áreas mais abertas e repletas de fontes de iluminação dinâmicas.

A direção de arte — que mistura templos antigos desolados com a arquitetura fria e brutalista da corporação Helios — brilha na tela com o uso intenso de cel shading (aquela textura que lembra desenhos animados em 3D), o que ajuda o jogo a envelhecer muito bem graficamente.

Para os colecionadores de plantão, vale um elogio especial à SelectaPlay, que garantiu que a versão de PlayStation 5 chegasse ao mercado não apenas digitalmente, mas com belíssimas edições físicas e de colecionador.

Considerações finais

Ereban: Shadow Legacy é uma adição obrigatória para os órfãos do gênero furtivo e para qualquer fã de jogos de plataforma em 3D. A equipe da Baby Robot Games demonstra uma maturidade impressionante para o seu primeiro projeto, entregando uma mecânica de travessia que é genuinamente inovadora e divertida de dominar.

Ainda que a Inteligência Artificial seja um pouco inconsistente e os saltos tradicionais precisem de mais refino, a satisfação de mergulhar nas sombras, contornar um exército robótico inteiro e ressurgir do outro lado sem nunca ter sido visto é uma experiência que poucos títulos modernos conseguem oferecer. Ayana deixa a sua marca nas sombras, e esperamos ver esse universo (e essa mecânica) ser expandido no futuro.


Pontos Positivos

  • Mecânica brilhante: O Shadow Merge transforma qualquer sombra do cenário em uma ferramenta de navegação ágil e absurdamente criativa.
  • Liberdade de abordagem: A possibilidade de completar o jogo como um fantasma pacifista ou um assassino letal aumenta muito a rejogabilidade.
  • Direção de arte: O uso de cores e do estilo cel shading contrasta lindamente com os quebra-cabeças que dependem de luz e escuridão.
  • História envolvente: Uma trama de ficção científica sólida sobre energia limpa, megacorporações e o sacrifício de uma espécie.

Pontos Negativos

  • IA inconsistente: O comportamento dos robôs da Helios oscila entre muito perspicazes e totalmente burros, forçando momentos de tentativa e erro.
  • Plataforma física rígida: Os saltos básicos na forma física de Ayana carecem do mesmo nível de polimento que o seu mergulho sombrio.

Ereban: Shadow Legacy une uma mecânica de travessia criativa à pura tensão da furtividade, preenchendo um vazio importante do gênero nos consoles atuais.

Plataformas: PC, PlayStation 5 e Xbox Series X|S.

A key da análise de Ereban: Shadow Legacy foi gentilmente cedida pela publisher.

administrator
compartilho minha paixão através de análises, reviews e notícias, oferecendo uma visão autêntica do mundo gamer.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *