Resonance: A Plague Tale Legacy poderia facilmente ter sido apenas uma oportunidade de explorar novamente um universo que já conquistou seu público. Em vez disso, a Asobo Studio escolhe um caminho muito mais interessante: voltar no tempo e colocar Sophia no centro de uma aventura que consegue expandir a mitologia de A Plague Tale sem depender exclusivamente da nostalgia.
Depois de acompanhar Amicia e Hugo em uma jornada marcada por sofrimento, perdas e escolhas difíceis, voltar para esse universo por meio de uma personagem que conhecemos em Requiem cria uma sensação curiosa. Sabemos que existe uma história maior por trás de Sophia, mas agora finalmente podemos descobrir como ela se tornou a pessoa que encontramos anteriormente.
E talvez seja justamente essa familiaridade que torne sua trajetória tão interessante.

Uma história sobre perda, destino e respostas
Sophia não começa sua jornada como a guerreira que eventualmente conheceremos. Sua história passa pela infância, pelo treinamento e, principalmente, pelas consequências de experiências que deixaram marcas profundas em sua vida.
O ponto de partida é bastante pesado. Ainda criança, Sophia é submetida a um experimento realizado por freiras, que envolve a aplicação de sangue e provoca uma reação estranha em seu corpo. As visões que surgem a partir disso passam a envolver um misterioso herói e a figura do Minotauro.
Seu pai, Alec, decide investigar a ilha relacionada às visões, mas a expedição termina em tragédia.
A morte dele se transforma no combustível para Sophia seguir em frente.

É nesse momento que Resonance começa a construir sua protagonista de maneira gradual. Em vez de simplesmente entregar uma personagem já pronta, o jogo mostra suas experiências, seus treinamentos e as circunstâncias que a transformam em alguém capaz de enfrentar os perigos que surgem pelo caminho.
E funciona.
Sophia possui uma personalidade diferente daquela que vimos em Amicia. Ela é mais experiente, mais agressiva e muito mais preparada para lutar. Essa diferença não existe apenas no roteiro: ela também influencia diretamente a maneira como o jogo é jogado.
Outro elemento que merece destaque é a presença da mitologia grega. O Minotauro e Theseus adicionam uma camada quase lendária à narrativa, enquanto os mistérios envolvendo a Prima Macula ajudam a conectar essa aventura aos acontecimentos que já conhecemos.
O mais interessante é perceber como pequenas informações aparentemente sem importância vão ganhando significado conforme a história avança. Resonance sabe guardar suas respostas e, principalmente, sabe o momento certo de entregá-las.

A Plague Tale aprendeu a lutar
Se existe uma mudança capaz de surpreender quem acompanha a série desde o primeiro jogo, está no combate.
Resonance abandona boa parte da fragilidade que marcava Amicia e coloca nas mãos de Sophia uma espada, uma faca e uma quantidade considerável de recursos para transformar confrontos em verdadeiras batalhas.
O sistema é baseado em ataques leves, esquivas, bloqueios e contra-ataques. Um parry realizado no momento correto pode deixar o adversário vulnerável, permitindo uma sequência de golpes bastante satisfatória.
Também existe um chute que pode ser usado para quebrar a defesa de determinados inimigos, além dos golpes críticos que exigem atenção ao momento correto.
O resultado é um combate surpreendentemente fluido.
Sophia se movimenta bem, responde rapidamente aos comandos e possui finalizações que dão bastante impacto aos confrontos. Quando vários inimigos aparecem ao mesmo tempo, o jogo permite combinar diferentes ferramentas para controlar a situação.

O gancho, por exemplo, não serve apenas para exploração. Durante as batalhas, ele pode puxar inimigos para perto, inclusive arqueiros que preferíamos manter bem longe.
E é justamente essa liberdade que faz os combates funcionarem.
Você pode bloquear, esquivar, utilizar objetos, puxar adversários ou aproveitar uma abertura para executar um golpe mais poderoso. Existe espaço para improvisar, algo que combina muito bem com uma protagonista que está longe de ser indefesa.
Durante determinados momentos, as visões de Sophia também permitem assumir o controle de Theseus, criando uma segunda perspectiva dentro da aventura. A presença dele não é apenas narrativa, já que também possui habilidades próprias, incluindo o Focus Attack.
É uma maneira interessante de variar o ritmo sem quebrar a estrutura da campanha.
Luz contra a escuridão
Apesar de o combate ganhar muito mais espaço, Resonance não abandona completamente as características que ajudaram a definir A Plague Tale.
A luz continua sendo fundamental.
Alguns inimigos não podem simplesmente ser derrotados com uma espada. Nesses momentos, entender o ambiente e manipular a iluminação se torna essencial para continuar avançando.
Sophia também possui uma esfera com diferentes funções. Ela pode ajudar a encontrar pistas, controlar diferentes tipos de luz e até mesmo auxiliar no combate contra determinadas criaturas.
Os quebra-cabeças seguem uma estrutura relativamente simples, principalmente quando comparados ao peso da narrativa. Na maior parte das vezes, o desafio está em descobrir como direcionar a luz para liberar determinado caminho ou resolver uma situação específica.

Não chega a ser o ponto alto da experiência, mas funciona bem como uma pausa entre os combates e os momentos mais cinematográficos.
O stealth também aparece, principalmente quando Sophia precisa atravessar áreas onde a ausência de luz torna determinadas criaturas uma ameaça real.
Aqui existe uma pequena oportunidade perdida: seria interessante ter mais liberdade para utilizar furtividade contra inimigos humanos. Como o combate é tão presente, algumas situações poderiam ganhar ainda mais variedade caso o jogador pudesse escolher com maior frequência entre lutar ou passar despercebido.
Um mundo que parece uma pintura
Visualmente, Resonance: A Plague Tale Legacy é simplesmente impressionante.
A Asobo Studio novamente demonstra uma enorme capacidade de construir cenários que parecem ter sido cuidadosamente compostos para serem admirados.
Ruínas antigas, construções deterioradas, vegetação tomando conta de estruturas esquecidas e enormes áreas iluminadas pelo fogo criam um mundo que consegue ser bonito e ameaçador ao mesmo tempo.
E existe uma característica que merece atenção especial: a iluminação.
A luz não está ali apenas para deixar o jogo bonito. Ela faz parte da identidade visual e também da própria experiência de jogo.

Um cenário iluminado pelo pôr do sol pode transmitir tranquilidade e beleza. Pouco depois, podemos entrar em uma estrutura subterrânea tomada por sombras e ter a sensação de que estamos entrando em um lugar onde algo terrível foi escondido durante séculos.
Essa mudança constante de atmosfera evita que a exploração se torne visualmente cansativa.
Os personagens também receberam um cuidado impressionante. Pequenos detalhes na armadura, marcas no corpo, tatuagens de Sophia e até acessórios encontrados durante a aventura ajudam a dar mais personalidade ao elenco.
É um daqueles jogos em que parar para observar o cenário não parece perda de tempo.
Pelo contrário.
Às vezes, parece exatamente o que o jogo quer que façamos.
Companheiros que ajudam a carregar a jornada
Sophia não atravessa essa aventura completamente sozinha.
Entre os personagens que aparecem durante sua jornada está Leni, uma ladra carismática que rapidamente conquista espaço graças ao seu humor e personalidade.
Os NPCs também ajudam a tornar o mundo mais vivo. Muitos deles possuem diálogos próprios, e ouvir essas conversas enquanto exploramos pode revelar pequenos detalhes sobre o local e sobre as pessoas que vivem nele.
A dublagem acompanha muito bem esse trabalho.
Sophia transmite emoção nos momentos certos, enquanto personagens como Faro, Leni e Theseus conseguem dar personalidades distintas ao elenco. Theseus, particularmente, possui momentos em que sua interpretação consegue carregar uma intensidade impressionante.
A trilha sonora segue o mesmo caminho.
Com forte influência musical grega, as composições alternam entre momentos melancólicos e passagens grandiosas. A música sabe quando desaparecer para deixar uma cena respirar e quando crescer para transformar uma batalha em algo muito maior.
Evolução sem perder a identidade
Outro detalhe interessante está na evolução de Sophia.
O jogo possui uma pequena árvore de habilidades alimentada pelos Resonance Points, permitindo melhorar características como chute e ataque crítico, desbloquear uma segunda esquiva consecutiva e até ampliar as possibilidades de defesa.
Também existem diferentes espadas, cada uma oferecendo benefícios específicos, além de amuletos capazes de acrescentar vantagens durante a aventura.
Não é um sistema extremamente profundo, mas cumpre bem sua função.
A progressão dá ao jogador uma sensação constante de crescimento sem transformar Resonance em um RPG complexo.
E isso combina perfeitamente com a proposta.
Prós e Contras
Prós
- História envolvente e bem conectada ao universo de A Plague Tale;
- Sophia funciona muito bem como protagonista;
- Combate mais dinâmico e satisfatório;
- Excelente uso da iluminação;
- Cenários visualmente impressionantes;
- Bons personagens secundários;
- Trilha sonora marcante;
- Boa conexão entre mitologia grega e a mitologia da série.
Contras
- Quebra-cabeças poderiam ser mais elaborados;
- O stealth poderia oferecer mais liberdade contra inimigos humanos;
- Alguns sistemas de evolução poderiam ter maior profundidade.
Vale a pena?
Resonance: A Plague Tale Legacy mostra que voltar ao passado não significa necessariamente repetir o que já foi feito.
A Asobo Studio poderia ter usado Sophia apenas como uma desculpa para retornar a um universo conhecido. Em vez disso, criou uma aventura que consegue desenvolver sua personalidade, apresentar novos mistérios e, principalmente, adicionar novas peças ao enorme quebra-cabeça construído pelos jogos anteriores.
A troca do stealth mais limitado de Amicia por um combate muito mais agressivo talvez seja a mudança mais significativa, e felizmente funciona. Sophia é uma protagonista diferente porque sua história exige que ela seja diferente.
Mas, por trás das batalhas, das ruínas e da mitologia do Minotauro, ainda existe aquilo que tornou A Plague Tale tão especial: emoção.
É uma história sobre perda, amadurecimento, destino e a necessidade quase desesperada de encontrar respostas.
E talvez esse seja o maior mérito de Resonance.
Ele não tenta apagar o que veio antes.
Ele olha para trás, encontra uma história que ainda precisava ser contada e transforma esse passado em algo que acrescenta significado ao futuro.
Resonance: A Plague Tale Legacy é uma excelente adição ao universo da série e uma prova de que ainda existem histórias interessantes escondidas entre as páginas que já conhecemos.
Obrigada Focus Home Interactive!!!