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Review | Screamer: Uma colisão insana entre velocidade arcade e drama de anime

Imagine pegar a essência caótica das corridas com armas de clássicos como Blur ou Mario Kart, adicionar uma camada técnica de controle de drift e injetar uma dose letal de estética e drama de anime japonês dos anos 90. O resultado dessa mistura improvável atende pelo nome de Screamer, o mais novo título de corrida arcade desenvolvido pela Milestone em parceria com o renomado estúdio de animação Polygon Pictures.

Apresentando uma identidade visual fortíssima e mecânicas de pilotagem nada convencionais, o jogo tenta se destacar em um gênero que muitas vezes sofre com a mesmice. Abaixo, você confere a nossa análise completa sobre essa experiência encharcada de neon e fumaça de pneu.

A arte do drift nos dois analógicos

A primeira coisa que você precisa desaprender ao jogar Screamer é como fazer uma curva. O jogo adota um sistema de direção twin-stick (uso simultâneo dos dois analógicos). O analógico esquerdo controla a direção básica — útil apenas para desvios leves em retas —, mas é o analógico direito que dita o ângulo do seu drift, jogando a traseira do carro para os lados. Tentar fazer uma curva fechada usando apenas a direção convencional fará seu carro sair reto pela tangente, como um tijolo com rodas.

É um sistema que exige engajamento e certa curva de aprendizado. Na maioria dos veículos, a sensação de pêndulo ao deslizar pelas pistas é recompensadora e acessível. Contudo, em alguns modelos específicos, esse efeito é exagerado, tornando a pilotagem desajeitada e punitiva.

Quando o jogo foca em pistas abertas, cheias de retas e curvas longas e amplas — especialmente os belíssimos circuitos urbanos noturnos debaixo de chuva —, Screamer atinge o seu ápice. A sensação de velocidade é fantástica. Infelizmente, o design das pistas mais sinuosas quebra totalmente esse ritmo. O jogo obriga você a cravar os freios constantemente para lidar com curvas fechadas e switchbacks (zigue-zagues), revelando uma dirigibilidade surpreendentemente frouxa e sem graça em baixas velocidades.

Combate tático a 200 km/h

Muito além de apenas derrapar, Screamer flerta abertamente com a lógica dos jogos de luta através de seu sistema de power-ups e medidores. Você gerencia duas barras interligadas: uma para impulso (boost) e outra para combate. O pulo do gato é que você só enche a barra de ataque consumindo a sua barra de impulso.

A profundidade desse sistema impressiona. Cada personagem (que também atua como seu próprio veículo) possui divisões únicas nessas barras, com pontos fortes e fracos claros. Alguns são focados em velocidade pura, enquanto outros são tanques de guerra ofensivos. O problema é que o balanceamento peca em algumas situações. Há um personagem, por exemplo, que explode instantaneamente se raspar na parede enquanto está no modo de ataque (“Strike”). Escolher esse piloto em uma pista estreita não é um desafio divertido, é apenas um exercício de pura frustração.

As máquinas em si são um show à parte. O design dos veículos transborda a vibe das animações japonesas da velha guarda, com aerofólios absurdos, pinturas coloridas e detalhes mecânicos charmosos, como faróis escamoteáveis (pop-up headlights). A paixão da Milestone na modelagem desses carros é evidente e dá muita personalidade à garagem do jogo.

O drama (excessivo) do Torneio

Onde Screamer aposta suas fichas mais altas é no seu Modo História. A trama acompanha cinco trios competindo em um torneio ilegal e bilionário, organizado por um vilão mascarado excêntrico. O elenco é uma salada mista que inclui estrelas do pop, astronautas, mercenários e… um cachorro que sabe dirigir (e muito bem, por sinal).

A parceria com a Polygon Pictures rendeu frutos lindíssimos. As cutscenes são impecáveis, nítidas e dignas de uma série de TV de alto orçamento. Há um detalhe muito bacana: cada personagem fala em seu idioma nativo, mas todos se entendem perfeitamente graças a um “chip tradutor” universal.

O problema não está na qualidade da animação, mas sim no roteiro. O jogo frequentemente sofre de incontinência verbal. Os personagens não param de falar, reclamar e brigar por motivos fúteis. A narrativa joga você no meio de conflitos e mágoas do passado que não foram explicados, fazendo com que a história pareça a 4ª temporada de um anime que você nunca assistiu ao começo. A necessidade constante de interrupções dramáticas e diálogos exaustivos torna muito difícil criar qualquer empatia real pelos corredores.

Além disso, o jogo te obriga a jogar as primeiras missões da história antes mesmo de liberar o menu principal. Funciona bem como um tutorial obrigatório — o que é justo, dado o sistema de controle complexo —, mas pode afastar jogadores que queriam apenas pular direto para uma corrida rápida.

Missões frustrantes e a salvação do Multiplayer

A dificuldade no modo torneio é uma montanha-russa mal projetada. Em algumas provas, você passará em primeiro lugar sem suar a camisa; em outras, você esbarrará em objetivos bizarros e restritivos. Em uma missão específica, você precisa eliminar dois membros da equipe “Green Reaper” para vencer, mas o jogo não permite ataques se você estiver liderando a prova. Isso te obriga a frear de propósito, deixar os adversários passarem e torcer para que o alvo correto esteja na sua frente para só então atacar. É um game design artificial que pune quem pilota bem.

Felizmente, se o modo torneio testar a sua paciência, o resto do pacote é espetacular. O Modo Arcade oferece uma personalização profunda, permitindo alterar a taxa de recarga dos golpes, desativar armas para focar apenas na pilotagem limpa e forçar estados de aceleração constante.

E, para a surpresa (e alegria) de todos, Screamer oferece suporte para quatro jogadores em tela dividida local. Ver uma desenvolvedora incluir splitscreen para quatro pessoas em pleno 2026 é um feito que merece aplausos de pé. O jogo também brilha em suas opções de acessibilidade, incluindo remapeamento total para jogar com apenas uma mão (onde o jogo automatiza a aceleração e funde a direção e o drift em um único analógico), filtros de daltonismo e controle de velocidade offline.

Considerações finais

Screamer é uma explosão de neon, velocidade e drama adolescente que assume sua identidade extravagante sem medo de ser feliz. Quando os carros estão deslizando de lado a 200 km/h em pistas abertas, a experiência é uma das mais satisfatórias que o gênero arcade produziu recentemente.

Apesar das missões frustrantes e restritivas no modo história e de um elenco que fala muito mais do que deveria, o excelente sistema de combate tático atrelado ao drift e o compromisso louvável com o multiplayer local (tela dividida) fazem deste título uma adição formidável à biblioteca de qualquer fã de corrida.


Pontos positivos

  • Visual de ponta: Carros estilizados e cutscenes com qualidade de animação japonesa de alto nível.
  • Mecânica twin-stick: O sistema de controlar o drift no analógico direito é original, profundo e muito recompensador nas pistas certas.
  • Profundidade no combate: Gerenciar a barra de impulso para conseguir atacar cria uma camada estratégica excelente nas corridas.
  • Multiplayer local: Tela dividida para quatro jogadores no mesmo sofá é um diferencial raríssimo nos dias de hoje.
  • Acessibilidade: Ótimas opções de remapeamento de controles para jogar com apenas uma mão.

Pontos negativos

  • História exaustiva: Excesso de diálogos melodramáticos e personagens reclamões quebram o ritmo do jogo.
  • Pistas sinuosas não funcionam: O jogo perde toda a sua diversão e sensação de velocidade em circuitos estreitos e travados.
  • Objetivos artificiais: Missões da campanha que te obrigam a dirigir mal ou ficar em posições específicas para poder usar armas geram pura frustração.

Screamer é um excelente racer arcade de combate que brilha nas pistas largas e no multiplayer de sofá, mesmo quando o seu modo história acelera fundo na direção do tédio.

Plataformas: PC, PlayStation 5 e Xbox Series X|S.

A key da análise de Screamer foi gentilmente cedida pela publisher.

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