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Review: Afterlove EP – O luto, a música e os caminhos do recomeço

Afterlove EP é daqueles jogos que falam com a alma. Desenvolvido pela indonésia Pikselnesia e publicado pela Fellow Traveller, o título propõe mais que uma história de amor: ele é uma reflexão sobre o luto, os laços humanos e o lento processo de reconstrução interior. Combinando visual novel, simulação de relacionamentos e mecânicas rítmicas, o jogo abraça a vulnerabilidade emocional como tema central — algo raro e valioso na indústria.

A vida depois do amor

Assumimos o papel de Rama, um jovem músico que tenta seguir a vida após a perda de sua namorada, Cinta. Mesmo após a morte, Cinta ainda “dialoga” com ele em pensamentos, numa representação simbólica do quanto o luto pode ser um processo íntimo, confuso e duradouro.

Rama tem 28 dias — um mês simbólico — para tomar decisões que definirão seu futuro. Ele deve finalizar um EP musical enquanto equilibra sua vida social, cuida da saúde mental e tenta encontrar sentido no cotidiano. Esse tempo limitado se torna a espinha dorsal da estrutura narrativa: cada dia oferece dois períodos (manhã e tarde) para agir, o que exige planejamento, reflexão e foco.

O sistema de escolhas é sutil, mas impactante. Quem Rama encontra, com quem conversa, se ele vai à terapia, ensaia com a banda ou apenas vaga pelas ruas de Jacarta — tudo influencia os desdobramentos da história. No final, vários finais possíveis refletem o estado emocional do personagem e as conexões que construiu (ou deixou de construir).

Música como metáfora e mecânica

Como músico, Rama encontra na música um elo com o passado e uma ferramenta de expressão. Durante os ensaios com a banda, minijogos de ritmo são ativados, exigindo reflexos para acertar notas em uma mecânica simples, porém simbólica. Essas seções não têm grande desafio mecânico, mas funcionam como respiro entre momentos narrativos e ajudam a reforçar a temática musical do jogo.

O ponto é que a música aqui não está apenas presente como ambientação: ela é parte da identidade emocional do jogo. As faixas compostas pela banda real L’Alphalpha embalam os momentos mais íntimos com um mix de shoegaze e pós-rock melancólico, transmitindo aquela sensação de solidão que só uma boa trilha sabe fazer.

Uma Jacarta viva e ilustrada à mão

Outro grande destaque de Afterlove EP é sua ambientação. A cidade de Jacarta é retratada com carinho e autenticidade, com locais reais como o bairro Blok M ou o parque Ayodya. É raro vermos a cultura indonésia representada nos games com tanta humanidade — e mais raro ainda sem estereótipos. O estilo de arte desenhado à mão reforça essa conexão com o cotidiano e com o emocional dos personagens.

As animações são simples, mas a direção de arte compensa isso com expressividade, especialmente nas cenas que envolvem conversas importantes. As cores suaves e a paleta amarelada e nostálgica fazem o jogador sentir que está folheando o diário de alguém — e é exatamente essa a proposta.

O peso de uma perda real

Talvez o aspecto mais tocante de Afterlove EP seja sua origem. O jogo foi idealizado por Mohammad Fahmi, criador do aclamado Coffee Talk, mas infelizmente ele faleceu durante o desenvolvimento. A equipe da Pikselnesia optou por continuar o projeto com base nas ideias deixadas por Fahmi, e é impossível não sentir esse luto também impregnado na obra.

Essa dor latente dá ao jogo uma camada extra de sinceridade. A forma como o roteiro lida com saudade, incertezas e recomeços soa pessoal demais para ser apenas ficção. E é esse impacto que transforma Afterlove EP em algo mais do que um jogo: ele é uma carta de despedida, mas também um convite a viver.


Conclusão

Afterlove EP não é um jogo para quem busca ação ou desafios intensos. Ele é, acima de tudo, uma experiência emocional. Com sua narrativa intimista, personagens sensíveis, ambientação culturalmente rica e trilha sonora comovente, o jogo fala de amor, perda e superação com uma maturidade rara.

Apesar das mecânicas simples e do ritmo lento, sua força está naquilo que não se pode medir: empatia, identificação e a beleza de continuar vivendo mesmo quando tudo parece perdido. É um tributo sensível ao criador que partiu, e uma lembrança poderosa de que recomeçar não é esquecer — é encontrar novos significados.


Plataformas: PC, PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch
Desenvolvedora: Pikselnesia
Publicadora: Fellow Traveller
Data de lançamento: 14 de fevereiro de 2025
Key cedida para análise

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