O trabalho de preservação de videogames é algo que merece ser aplaudido de pé. Por muitos anos, dezenas de títulos fantásticos ficaram presos em regiões específicas ou em hardwares obsoletos, transformando-se em lendas esquecidas. Felizmente, a ININ Games construiu uma reputação sólida ao escavar o baú da lendária desenvolvedora Taito. O mais recente tesouro a ser desenterrado dessa parceria é Spica Adventure, um charmoso jogo de plataforma 2D de ação que, até então, era exclusivo dos fliperamas e celulares do Japão.
Fazendo a sua estreia mundial nos consoles modernos, o jogo traz consigo aquela essência pura e sem filtros da era dos arcades. Mas será que a sua mecânica simples consegue prender a atenção do jogador de hoje, ou o título funciona apenas como uma peça de museu? Pegamos o nosso melhor guarda-chuva para pular nessa aventura e trazer a análise completa.
A magia do guarda-chuva amarelo
Esqueça as narrativas complexas ou os mundos sombrios. Em Spica Adventure, você assume o controle de Nico, uma garotinha vestida de rosa que precisa salvar o universo armada apenas com o seu fiel (e extraordinário) guarda-chuva amarelo.
Se você é um veterano dos arcades, a premissa pode lembrar imediatamente clássicos como Parasol Stars ou Bubble Bobble, e isso não é coincidência. No entanto, o ritmo aqui é bem diferente. Em vez de prender inimigos, o foco é na ação rápida. O guarda-chuva de Nico é o verdadeiro protagonista do gameplay, funcionando como um “canivete suíço” de habilidades.

Você pode usá-lo para atacar inimigos diretamente, disparar projéteis, planar suavemente pelo ar, quicar em superfícies perigosas e — o mais divertido de tudo — abrir o parasol para se defender, refletindo os tiros inimigos em até oito direções diferentes. Dominar esse movimento de defesa e contra-ataque é essencial para sobreviver às fases mais avançadas.
O robô da pressa e as rotas ramificadas
Fiel às suas raízes “papa-fichas”, Spica Adventure não quer que você fique parado admirando a paisagem. O jogo impõe um senso de urgência genial: se você demorar muito tempo explorando uma única fase, um robô gigantesco e indestrutível ocupará a tela inteira, perseguindo Nico incansavelmente até que ela chegue ao final do nível. Isso transforma a experiência em um verdadeiro balé de velocidade e reflexos.
Para compensar o fato de ser um jogo inerentemente curto, a Taito incluiu um sistema de rotas ramificadas. Ao todo, existem 28 estágios desenhados com um visual que lembra uma caixa de brinquedos colorida, mas você não joga todos em uma única partida. No final de certas fases, você pode escolher para qual caminho da galáxia deseja seguir, o que incentiva você a jogar a campanha várias vezes para conhecer todos os níveis e enfrentar diferentes chefes.
A maldição (e a bênção) do estilo Arcade
Onde o jogo começa a tropeçar é justamente no formato em que foi concebido. Por ser uma experiência focada na ação rápida e na quebra de recordes de pontuação (score-chasing), os jogadores que buscam progressões profundas, árvores de habilidades ou elementos modernos de plataforma podem sentir que o jogo é “raso” demais. Você não fica mais forte com o tempo; você apenas fica mais habilidoso.
Outro ponto que carece de polimento são as batalhas contra os chefes. A dificuldade deles é bastante irregular. Enquanto alguns oferecem combates dinâmicos baseados no reconhecimento de padrões de ataque, outros soam excessivamente fáceis ou esquisitos, caindo com poucos golpes bem aplicados com o guarda-chuva.

Visualmente, o título é uma explosão de cores vibrantes, parecendo um comercial de doces dos anos 80. A ININ Games fez um excelente trabalho ao adaptar o título para os controles modernos (embora os puristas ainda possam optar pelo esquema clássico de dois botões) e incluir tabelas de classificação globais para acirrar a disputa entre os velocistas (speedrunners).
Considerações finais
Spica Adventure não tenta reinventar a roda dos jogos de plataforma 2D, e nem precisa. O seu único objetivo é entregar um resgate histórico fiel e divertido, focado na alegria do movimento e no caos controlado da tela.
A mecânica de usar o guarda-chuva para refletir tiros e planar pelos cenários é mecanicamente recompensadora. Embora seja um jogo curto e focado quase que exclusivamente em jogadores que amam rejogar fases em busca da pontuação perfeita, a doçura e a agilidade da aventura de Nico provam que a Taito ainda possui muitas joias escondidas que merecem ver a luz do dia no ocidente.
Pontos Positivos
- Resgate histórico: A ININ Games faz um trabalho primoroso ao trazer um exclusivo japonês para o público global.
- Mecânicas do guarda-chuva: Usar o parasol para planar, pular e refletir tiros em oito direções é extremamente divertido e responsivo.
- Fator replay: O sistema de rotas ramificadas ao longo de 28 fases incentiva o jogador a finalizar a campanha por caminhos diferentes.
- Estética adorável: Visual vibrante, colorido e fiel à era de ouro dos fliperamas japoneses.
Pontos Negativos
- Experiência muito curta: O jogo pode ser terminado rapidamente, sustentando-se apenas na busca por pontuações mais altas (típico de arcades).
- Chefões irregulares: O design de alguns chefes oscila entre o simplório demais e o desbalanceado.
- Falta de progressão: Não há sistemas de melhoria ou coleta obrigatória, o que pode afastar jogadores acostumados com plataformas mais modernos.
Spica Adventure é uma viagem colorida no tempo, provando que mecânicas precisas e uma pitada de pressa ainda são a melhor receita para a diversão puramente arcade.
Plataformas: PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X|S e Nintendo Switch.
A key da análise de Spica Adventure foi gentilmente cedida pela ININ Games para o 240pixels. O nosso muito obrigado pela parceria de sempre.