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Review | Retrace the Light — E se o caminho que você percorreu fosse sua melhor arma?

Alguns jogos de ação colocam uma espada nas mãos do protagonista. Outros apostam em armas de fogo, esquivas perfeitas ou combos cada vez mais elaborados. Retrace the Light resolve fazer diferente: aqui, o seu próprio caminho pode ser a ferramenta mais importante da aventura.

Controlando Decem, o jogador percorre um universo de ficção científica marcado por tecnologia misteriosa, memórias fragmentadas e ambientes que parecem ter saído de um sonho. Mas o que realmente chama atenção é uma habilidade que acompanha praticamente toda a experiência.

Cada movimento deixa um rastro luminoso pelo cenário. Com o comando de retrace, Decem pode voltar instantaneamente pelo caminho que acabou de percorrer.

Parece simples, mas essa mecânica muda completamente a maneira de pensar os combates e até mesmo a exploração.

UM PASSO PARA FRENTE, OUTRO PARA TRÁS

O Spatial Retracing é o grande protagonista de Retrace the Light.

Durante uma batalha, não basta pensar apenas em atacar. Você precisa pensar em posicionamento e, principalmente, em qual caminho está deixando para trás.

É possível avançar contra um inimigo, provocar um ataque e retornar rapidamente para escapar. Também dá para entrar em uma área perigosa de propósito, realizar uma ofensiva e usar o retrace para voltar a uma posição segura.

Com o tempo, aquilo que inicialmente parece apenas uma habilidade defensiva começa a ser utilizado de maneira muito mais criativa.

Você passa a planejar seus movimentos antes mesmo de executá-los.

E essa é uma das melhores sensações proporcionadas pelo jogo.

COMBATE COM ESPAÇO PARA EXPERIMENTAR

Os confrontos conseguem manter um bom ritmo justamente porque o sistema não incentiva apenas ataques diretos.

Os inimigos apresentam diferentes padrões e obrigam o jogador a prestar atenção no momento certo para avançar ou recuar. Saber utilizar o caminho criado por Decem pode ser a diferença entre escapar de uma situação complicada ou acabar cercado.

O sistema também faz com que a movimentação tenha um peso maior do que normalmente teria em um jogo de ação.

Você não está apenas desviando de um ataque.

Está construindo uma possível rota de fuga.

Os controles ajudam bastante. Decem responde bem aos comandos e a movimentação combina com a proposta de velocidade e reposicionamento constante.

Quando alguma coisa dá errado, a sensação geralmente é de que faltou utilizar melhor as possibilidades oferecidas pelo jogo.

CHEFES QUE COLOCAM A MECÂNICA À PROVA

É nos chefes que Retrace the Light consegue aproveitar melhor sua principal ideia.

Esses confrontos não parecem existir apenas para colocar uma barra de vida enorme na tela. Eles exigem que o jogador entenda como utilizar o retrace em situações diferentes.

Algumas batalhas pedem paciência para observar os padrões de ataque. Outras incentivam uma postura mais agressiva, utilizando o retorno para entrar e sair rapidamente do alcance do inimigo.

Além do desafio, os chefes também são alguns dos elementos visualmente mais interessantes da aventura.

Seus desenhos possuem uma forte influência de elementos psicológicos e surreais, combinando com o universo apresentado pelo jogo e ajudando a tornar esses encontros mais memoráveis.

QUANDO O RETRACE VIRA PUZZLE

Uma das decisões mais acertadas é levar a mecânica para além do combate.

A exploração também utiliza o sistema de retrace para criar quebra-cabeças.

Em determinados momentos, você precisa planejar um percurso para alcançar interruptores, atravessar obstáculos ou interagir com elementos do cenário. O segredo está em compreender que o caminho percorrido anteriormente pode ser tão importante quanto a posição atual de Decem.

Isso evita que a principal mecânica pareça apenas um truque utilizado durante as batalhas.

Ela está integrada à estrutura da aventura.

Os puzzles também conseguem aumentar gradualmente a complexidade, permitindo que o jogador aprenda novas possibilidades sem receber tudo de uma vez.

Existem alguns momentos em que a câmera e os elementos do cenário podem dificultar um pouco a leitura, mas, no geral, resolver um desses desafios traz aquela boa sensação de finalmente entender o que o jogo estava tentando ensinar.

UM UNIVERSO ENTRE O FUTURO E O SURREAL

Visualmente, Retrace the Light possui uma identidade bastante própria.

A aventura mistura ficção científica com ambientes abstratos, estruturas futuristas e paisagens que muitas vezes parecem pertencer a um mundo imaginário.

A iluminação também tem papel importante.

O próprio rastro luminoso deixado por Decem acaba fazendo parte da estética do jogo, especialmente durante os combates, quando diferentes linhas de luz atravessam a tela junto dos ataques e efeitos visuais.

Os personagens seguem a mesma proposta, com designs que ajudam a diferenciar as figuras presentes nesse universo.

É uma direção artística que consegue fugir de uma ficção científica excessivamente fria e apostar em algo mais colorido e surreal.

UMA HISTÓRIA QUE DEMORA A SE REVELAR

Se o gameplay é um dos grandes destaques, a narrativa nem sempre consegue acompanhar o mesmo ritmo.

A história trabalha com temas interessantes envolvendo memórias, identidade, tecnologia e acontecimentos do passado de Decem.

O problema está na quantidade de informações apresentadas.

O jogo introduz diferentes conceitos e termos de seu universo, e nem sempre é fácil compreender imediatamente como todas essas peças se conectam.

Isso pode fazer com que algumas partes sejam mais confusas do que misteriosas.

Felizmente, conforme a aventura avança, as memórias e os acontecimentos começam a ganhar mais significado. É nesse momento que a narrativa encontra seu lado mais interessante, principalmente quando passa a trabalhar questões relacionadas ao passado e às consequências das experiências vividas pelos personagens.

A ideia está lá. Só poderia ser apresentada de maneira um pouco mais clara.

PROGRESSÃO PARA ENCONTRAR SEU ESTILO

A evolução de Decem conta com um sistema de módulos que permite modificar diferentes aspectos de suas habilidades.

Isso abre espaço para experimentar diferentes combinações e adaptar o personagem ao estilo de cada jogador.

Algumas melhorias podem favorecer determinadas abordagens de combate, enquanto outras ampliam possibilidades relacionadas à mobilidade e defesa.

O sistema funciona bem porque não parece existir apenas para transformar Decem em um personagem cada vez mais poderoso.

Ele serve para ampliar as possibilidades disponíveis.

E isso combina perfeitamente com um jogo que recompensa criatividade.

O QUE PODERIA SER MELHOR?

Nem tudo funciona com a mesma eficiência.

A narrativa é provavelmente o ponto que mais exige paciência. A quantidade de termos e conceitos pode dificultar a compreensão de determinados acontecimentos, especialmente no começo.

A navegação também poderia ser um pouco mais clara em alguns momentos. Existem áreas em que descobrir para onde seguir pode interromper o ritmo da aventura.

São problemas que não chegam a comprometer o conjunto, mas impedem que Retrace the Light seja uma experiência tão redonda quanto sua principal mecânica merece.

PONTOS POSITIVOS

  • Mecânica de retrace criativa e bem integrada
  • Combate que valoriza posicionamento e estratégia
  • Chefes que aproveitam bem a proposta
  • Puzzles construídos em torno da movimentação
  • Direção de arte estilizada e marcante
  • Boa resposta dos controles
  • Sistema de módulos que incentiva experimentação

PONTOS NEGATIVOS

  • Narrativa pode ser confusa em alguns momentos
  • Excesso de conceitos e terminologias dificulta a compreensão
  • Navegação poderia ser mais clara em determinadas áreas
  • Alguns puzzles sofrem um pouco com a leitura do cenário

VALE A PENA?

Retrace the Light consegue algo que nem sempre é fácil: pegar uma mecânica simples e fazer com que ela sustente boa parte da experiência.

O retrace não serve apenas para escapar de ataques. Ele participa dos combates, influencia a exploração e aparece nos quebra-cabeças, fazendo com que o jogador pense constantemente sobre seus próprios movimentos.

A narrativa poderia ser mais acessível e alguns momentos de exploração poderiam receber um pouco mais de atenção, mas esses problemas não conseguem apagar o principal mérito da aventura.

Quando tudo funciona, existe uma sensação muito boa de controle: você entra em uma situação perigosa, cria seu caminho, ataca, recua e volta exatamente para onde precisava estar.

Retrace the Light não transforma o caminho em apenas uma consequência do movimento. Ele transforma o caminho em parte da estratégia.

E, no fim das contas, talvez essa seja a melhor maneira de resumir a aventura de Decem: às vezes, para seguir em frente, você precisa saber exatamente como voltar.

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