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Beastro – Uma receita criativa que mistura gestão, culinária e batalhas estratégicas

Os jogos independentes continuam surpreendendo ao combinar gêneros que, à primeira vista, parecem incompatíveis. Beastro, novo título da Timberline Studio, segue exatamente esse caminho ao unir gerenciamento de restaurante, coleta de ingredientes, construção de receitas e combates baseados em cartas dentro de uma aventura cheia de personalidade. O resultado é uma experiência bastante original, embora nem todos os seus ingredientes funcionem com a mesma qualidade.

Em Beastro, assumimos o papel de Panko, um sous-chef que precisa assumir o comando do restaurante após o misterioso desaparecimento do chef principal. Ao seu lado está Flambe, um espírito de fogo mágico capaz de adicionar propriedades especiais às receitas. Enquanto administra o estabelecimento, Panko também ajuda os Guardiões da região — guerreiros responsáveis por proteger o mundo de monstros que surgem através de portais misteriosos.

O que inicialmente parece ser apenas uma aventura leve sobre culinária acaba apresentando uma narrativa mais elaborada do que o esperado. O desaparecimento do antigo chef, os segredos dos portais e os diversos personagens da cidade criam uma trama que incentiva o jogador a continuar avançando para descobrir o que realmente está acontecendo.

Jogabilidade

A estrutura de Beastro é dividida em três fases distintas que se repetem diariamente.

Pela manhã, o jogador explora a cidade, conversa com moradores, visita comerciantes e coleta ingredientes. É a parte mais tranquila da experiência e aquela que mais se aproxima dos chamados “cozy games”. O ritmo é relaxado e permite conhecer melhor os personagens e o universo criado pela Timberline Studio.

Durante a tarde, chega a hora de administrar o restaurante. Aqui entram diversos minigames inspirados em títulos culinários clássicos. Algumas dessas atividades são divertidas nas primeiras horas, mas acabam se tornando repetitivas com o passar do tempo. Felizmente, o sistema de criação de receitas consegue se destacar positivamente. Organizar ingredientes para criar pratos equilibrados e potencializar atributos específicos adiciona uma camada estratégica interessante que influencia diretamente os combates.

Mas é durante a noite que Beastro realmente mostra seu melhor lado.

Os Guardiões entram em ação para enfrentar monstros em batalhas que utilizam mecânicas de deckbuilding e elementos roguelite. As receitas preparadas anteriormente determinam quais habilidades estarão disponíveis durante os confrontos, criando uma conexão inteligente entre todas as atividades realizadas ao longo do dia.

O sistema de combate utiliza uma roda de sabores que funciona de forma semelhante a um sistema de vantagens e desvantagens, lembrando mecânicas de pedra, papel e tesoura. Essa abordagem encaixa perfeitamente com a temática gastronômica e ajuda a dar identidade própria às batalhas.

À medida que novas cartas, ingredientes e habilidades são desbloqueados, o sistema se torna cada vez mais interessante. Existe uma boa profundidade estratégica para quem gosta de construir combinações e experimentar diferentes estilos de jogo.

Um roguelite com algumas limitações

Apesar das boas ideias, o sistema de progressão apresenta alguns problemas.

Como em muitos roguelites, a sorte influencia bastante as partidas. Em alguns momentos, uma sequência ruim de cartas pode comprometer completamente uma batalha, sem oferecer muitas ferramentas para recuperação. Isso gera situações frustrantes, especialmente em lutas contra chefes.

Outro ponto que limita a liberdade do jogador é a forte dependência da progressão narrativa. Muitos ingredientes, receitas e melhorias importantes ficam bloqueados até que determinados eventos da história aconteçam. Isso reduz a sensação de descoberta natural que costuma ser um dos maiores atrativos dos jogos do gênero.

Em vez de permitir que o jogador experimente livremente estratégias diferentes e avance graças à criatividade, Beastro frequentemente conduz tudo de maneira bastante controlada.

Visual e direção artística

Se existe um aspecto em que Beastro impressiona desde os primeiros minutos, é sua direção artística.

Os personagens possuem enorme carisma e exibem personalidades únicas. Cada Guardião apresenta características visuais relacionadas ao seu “sabor” predominante, algo que influencia sua aparência, comportamento e estilo de combate.

Flambe rouba diversas cenas graças ao seu charme e animações cheias de vida, enquanto outros personagens memoráveis ajudam a tornar o mundo mais interessante.

Já os combates noturnos apresentam uma estética particularmente criativa. Toda a ação é encenada como se fosse um teatro de marionetes, com personagens e monstros surgindo sobre palcos que lembram uma apresentação de fantoches. O resultado é extremamente original e ajuda a destacar Beastro em meio a tantos jogos independentes lançados atualmente.

Som e ambientação

A trilha sonora acompanha bem as diferentes fases do jogo, alternando momentos relaxantes durante a exploração e administração do restaurante com músicas mais energéticas durante os confrontos.

Os efeitos sonoros também reforçam a temática culinária, contribuindo para criar uma atmosfera acolhedora e divertida. Embora não seja um trabalho revolucionário, cumpre seu papel com competência e ajuda a fortalecer a identidade do título.

Vale a pena?

Beastro é um jogo repleto de boas ideias. Sua mistura entre culinária, gerenciamento, narrativa e deckbuilding cria uma experiência diferente de praticamente tudo que existe atualmente no mercado.

O sistema de combate é divertido, a direção artística é excelente e a temática gastronômica está integrada de forma inteligente em praticamente todas as mecânicas do jogo.

Por outro lado, a falta de flexibilidade, alguns minigames pouco inspirados e certas limitações na progressão impedem que a experiência alcance todo o seu potencial. Em diversos momentos, o jogador pode sentir que está seguindo um caminho excessivamente controlado, com pouca liberdade para experimentar abordagens alternativas.

Ainda assim, para quem gosta de jogos independentes criativos, deckbuilders e experiências que fogem do convencional, Beastro oferece uma aventura bastante charmosa e cheia de personalidade.

Prós

  • Excelente direção artística
  • Personagens carismáticos e memoráveis
  • Sistema de deckbuilding divertido e estratégico
  • Temática culinária integrada em todas as mecânicas
  • Narrativa mais interessante do que aparenta inicialmente

Contras

  • Alguns minigames se tornam repetitivos rapidamente
  • Progressão excessivamente controlada pela narrativa

Plataformas: PC, PlayStation 5 e Xbox Series X|S.
Cópia do jogo cedida para análise.

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