Na indústria dos videogames, poucas empresas possuem o peso histórico e a capacidade de parar a internet com um simples anúncio como a Bethesda Game Studios. Os arquitetos por trás de The Elder Scrolls V: Skyrim e Fallout 4 passaram as últimas duas décadas aperfeiçoando a arte de criar mundos onde o jogador pode ser quem quiser e ir para onde desejar. No entanto, quando Starfield foi anunciado como a primeira nova propriedade intelectual do estúdio em 25 anos, a promessa não era apenas um novo mundo, mas um universo inteiro.
Após um lançamento original que dividiu opiniões e gerou debates infindáveis sobre os limites da geração procedural, o épico espacial amadureceu. Graças a dezenas de atualizações que reformularam mapas, adicionaram veículos terrestres e refinaram o gameplay, Starfield atingiu a sua forma final. Mais importante ainda: a exclusividade chegou ao fim e o título finalmente aterrissou no ecossistema do PlayStation 5, abrindo as portas da galáxia para uma nova legião de exploradores.

Mas afinal, despido do hype inicial e das guerras de consoles, o que realmente é Starfield? É um simulador espacial? Um RPG de mesa digital? Um jogo de tiro? Embarquei nessa jornada por dezenas de horas para dissecar cada átomo da obra. Prepare o seu tanque de oxigênio, pois a nossa análise definitiva começa agora.
A Estética NASA-Punk e a Construção do Universo
Para entender a alma de Starfield, precisamos primeiro olhar para a sua direção de arte. A ficção científica nos videogames costuma seguir dois caminhos: a fantasia polida e brilhante (como Mass Effect ou Star Wars) ou o terror enferrujado e escuro (como Dead Space). A Bethesda escolheu uma terceira e fascinante rota, que eles mesmos batizaram de NASA-Punk.

O universo de Starfield é fundamentado no realismo tátil. Ele projeta como seria o nosso futuro caso a corrida espacial tivesse continuado com a tecnologia analógica que conhecemos. Como resultado, as naves não são aerodinâmicas e invisíveis; elas parecem submarinos gigantescos, cheios de tubulações aparentes, painéis de botões físicos, telas de tubo e rebites pesados. Os trajes espaciais são volumosos e utilitários. Essa estética confere uma verossimilhança absurda ao mundo. Você sente que a humanidade não conquistou as estrelas com magia, mas sim com engenharia bruta, óleo e metal.
A história se passa no ano de 2330. A Terra se tornou inabitável após o colapso de sua atmosfera, forçando a humanidade a se espalhar pelos “Sistemas Colonizados”. O que sobrou da nossa espécie se dividiu em grandes facções: as Colônias Unidas (UC), uma república militarizada e burocrática; a Confederação Freestar, uma aliança de separatistas que vivem sob uma ética de faroeste espacial; e a enigmática Casa Va’ruun, um culto religioso fanático. No meio de tudo isso, piratas da Frota Escarlate, corporações implacáveis e colonos independentes tentam sobreviver no vácuo cruel.

Você começa como um zé-ninguém, um minerador extraindo metais em uma lua esquecida. Ao tocar em um artefato metálico estranho enterrado na rocha, você tem uma visão multiversal indescritível. Esse evento atrai a atenção da Constelação, um grupo lendário e quase extinto de exploradores dedicados a desvendar os últimos grandes mistérios do universo. A partir daí, o manto de herói (ou vilão) cai sobre os seus ombros.
O Coração do RPG: Criação de Personagem e Facções
A Bethesda sempre brilhou na liberdade de interpretação de papéis (role-playing), e Starfield eleva isso à máxima potência. A criação de personagem não se resume apenas a moldar o seu rosto, mas a definir o seu passado.
Você deve escolher um Antecedente (como Caçador de Recompensas, Chef de Cozinha, Diplomata ou Gângster), que lhe concede três habilidades iniciais e, mais importante, desbloqueia opções de diálogo exclusivas ao longo de todo o jogo. Um médico, por exemplo, pode convencer um segurança a deixá-lo entrar em uma área restrita fingindo uma emergência sanitária.

Além do Antecedente, você escolhe três Traços. Eles são facas de dois gumes geniais. O traço “Filho de Família” faz com que você tenha pais vivos no jogo (que você pode visitar em um apartamento), mas 2% de todo o seu dinheiro é descontado semanalmente para sustentá-los. O traço “Procurado” faz com que mercenários tentem te matar aleatoriamente no espaço, mas aumenta o seu dano quando a sua saúde está baixa. Essas escolhas moldam genuinamente a sua experiência.
A verdadeira força narrativa de Starfield, contudo, não reside na missão principal da Constelação, mas sim nas Missões de Facção. O jogo brilha de forma incandescente quando você entra em histórias roteirizadas à mão.
- A Frota Escarlate: Talvez a melhor sequência de missões do jogo. Você é coagido pelos militares a se infiltrar como um agente duplo no maior sindicato pirata da galáxia. A tensão de ter que cometer crimes para manter o seu disfarce enquanto repassa informações confidenciais para os oficiais é digna de um ótimo filme de espionagem.
- Vanguarda da UC: Uma linha de missões que flerta com o terror espacial de Aliens: O Resgate. Você se vê no meio de surtos de “Terrormorfos” — criaturas alienígenas apex que estão dizimando colônias inteiras —, obrigando-o a mergulhar nos segredos obscuros da última grande guerra da humanidade.
- Indústrias Ryujin: Uma incursão pesada no gênero cyberpunk. Localizada na cidade aquática de Neon (um antro de corrupção, drogas de alteração de realidade e luzes de neon), essas missões exigem furtividade, sabotagem corporativa, roubo de dados e invasão de computadores.
O grande triunfo de Starfield é que cada uma dessas facções é tão profunda e bem escrita que elas poderiam facilmente ser jogos independentes.
O Combate: Gravidade Zero, Mochilas e Pólvora
É sabido que a engine da Bethesda sempre lutou para entregar um jogo de tiro satisfatório (basta lembrar do quão travado era Fallout 3). Para Starfield, o estúdio reconstruiu completamente a sua mecânica de combate com armas de fogo (gunplay).
O resultado é surpreendente: Starfield é um shooter excelente. As armas (que variam de revólveres de tambor baseados no velho oeste a rifles de partícula eletromagnética) têm peso, recuo e um impacto sonoro brutal. O sistema de personalização permite colocar silenciadores, miras a laser e alterar os tipos de munição de todo o seu arsenal em bancadas de trabalho.

Mas a verdadeira revolução do combate vem de duas variáveis: a gravidade e as mochilas propulsoras (Boost Packs).
Cada planeta e lua possui uma gravidade própria. Em um planeta massivo, você andará devagar e pulará poucos centímetros. Em uma lua com gravidade de 0.10G, um salto pode arremessar você a dezenas de metros de altura. O combate em gravidade zero (frequentemente ocorrido ao invadir estações espaciais abandonadas ou naves piratas desativadas) é um balé letal. Se você disparar uma escopeta tradicional de grosso calibre no vácuo, o coice da arma empurrará o seu personagem para trás devido às leis da física. Para evitar isso, você deve usar armas de energia (lasers) que não geram recuo balístico.
Adicione a isso os Boost Packs, que permitem ao jogador pairar no ar, atacar por cima de coberturas ou evitar explosivos. O combate deixa de ser estático e ganha uma verticalidade fantástica, tornando-se rápido, letal e incrivelmente divertido.
Batalhas Navais e a Obra-Prima da Construção de Naves
Starfield não restringe o combate ao solo. Ao entrar na sua nave e decolar para o hiperespaço, o jogo introduz um sistema de combate naval inspirado em clássicos como Elite Dangerous e FTL: Faster Than Light.
Durante as lutas espaciais, você precisa gerenciar ativamente a Alocação de Energia (PIP) da sua nave. Você tem um reator que fornece um número X de barras de energia. Se você está sendo perseguido por piratas e seus escudos caem, você precisará desviar a energia dos motores e dos lasers de ataque para alimentar rapidamente o escudo defletor ou a gravidade para tentar um salto de fuga no hiperespaço. É um sistema tático que exige pensamento rápido sob fogo inimigo. Além disso, ao desbloquear as habilidades certas, você pode focar especificamente nos motores da nave inimiga. Uma vez desativados, você pode se acoplar à nave adversária, invadi-la, matar a tripulação em combate de perto, saquear a carga e roubar a nave para a sua frota.

E isso nos leva à joia da coroa de Starfield: O Construtor de Naves.
O nível de profundidade que a Bethesda colocou no sistema de criação de naves é assustador. Trata-se de um gigantesco quebra-cabeça 3D. Em qualquer espaçoporto, você pode deletar peças da sua nave e começar a construí-la do zero.
Você escolhe o trem de pouso, módulos de habitação, arsenais, laboratórios de pesquisa, reatores nucleares, motores de dobra e escudos. Tudo precisa estar conectado logicamente e as regras de massa e energia precisam ser respeitadas (você não pode colocar o motor mais fraco do jogo em um cargueiro de 3.000 toneladas, pois ele nem sairá do chão).
A comunidade abraçou esse sistema de uma forma visceral, recriando desde a Millennium Falcon de Star Wars até a Normandy de Mass Effect, ou criando aberrações navais na forma de sapos gigantes. A mágica dessa ferramenta é que a arquitetura externa dita exatamente o layout interno da nave. Onde você coloca a cabine do capitão é exatamente onde ela estará quando você se levantar da cadeira de piloto para caminhar lá dentro.
O Paradoxo da Exploração e o Dilema Procedural
Chegamos ao ponto de maior fricção do jogo. Ao prometer mais de 1.000 planetas exploráveis, a Bethesda precisou recorrer à geração procedural de mapas. Ao contrário de Skyrim, onde cada rocha e árvore foi colocada no lugar por um designer humano (hand-crafted), os planetas periféricos de Starfield são gerados por um algoritmo.
Isso cria um paradoxo imenso. Por um lado, o escopo permite que o jogo ofereça céus noturnos de cair o queixo, onde você pode observar planetas gasosos gigantescos com anéis eclipsando o sol enquanto você caminha por uma lua de gelo. Visualmente, é um colírio estonteante. Você pode abrir o seu scanner, registrar a flora, a fauna exótica e os recursos minerais, montando Postos Avançados (Outposts) de mineração para formar uma malha logística de extração pela galáxia.

Por outro lado, essa geração de terrenos esbarra na “Síndrome do Oceano Raso”: o jogo é largo como um oceano, mas possui apenas um palmo de profundidade fora das missões principais. Se você pousar na Terra, em Plutão ou em uma lua em Alpha Centauri e sair caminhando a esmo, o algoritmo começará a povoar o mapa com “Pontos de Interesse” (bases abandonadas, fábricas, cavernas). O problema é que o jogo possui um número limitado de modelos dessas bases. Rapidamente, você perceberá que o laboratório secreto de piratas em que você entrou agora possui o exato mesmo corredor, com as caixas nos mesmos lugares e o corpo do mesmo cientista morto no exato mesmo canto do laboratório que você visitou há dois sistemas solares de distância.
Essa repetição mata o desejo de sair vagando sem rumo. Starfield exige que você “desaprenda” a jogar títulos da Bethesda. Se você ficar vagando pelos planetas procedurais, você ficará entediado. Se você seguir as rotas, os NPCs e as missões das cidades feitas à mão (New Atlantis, Akila, Neon, Cydonia), você encontrará o melhor que o estúdio tem a oferecer.
A salvação dessa exploração de superfície veio de forma tardia (mas muito bem-vinda) com as atualizações que introduziram o REV-8, o buggy de exploração terrestre. Anteriormente, caminhar 1.500 metros até uma anomalia espacial era tedioso. Com o veículo, que conta com propulsores próprios e lança-mísseis acoplados, a travessia dos planetas transformou-se em um mini-jogo de rally em baixa gravidade, consertando drasticamente o ritmo compassado da exploração.
A Chegada ao PS5: DualSense e Otimização
A aterrisagem de Starfield no PlayStation 5 trouxe consigo não apenas o jogo base com todas as grandes atualizações (incluindo mapas de cidades tridimensionais muito mais fáceis de ler), mas uma série de melhorias que fazem uso inteligente do hardware da Sony.
A imersão do DualSense é um espetáculo à parte. Os Gatilhos Adaptáveis oferecem resistência pesada ao usar armas de pulso ou engatilhar fuzis de precisão, enquanto a Resposta Tátil faz o controle tremer nos locais corretos quando os propulsores da sua nave começam a queimar combustível pesado durante uma decolagem. O uso do painel tátil (Touchpad) como uma interface de “deslizar” rápida para os menus do jogo (que sempre foram pesados) é um daqueles toques de design que melhoram a Qualidade de Vida (QoL) em 100%.

Graficamente, o Creation Engine 2 nunca esteve tão estável nos consoles. O PS5 oferece a escolha vital entre Fidelidade e Desempenho. No modo desempenho, os 60 quadros por segundo mudam completamente a agressividade e a fluidez do gunplay. O jogo aproveita o poder do SSD para mitigar o seu outro grande problema: as telas de carregamento.
Starfield não é um jogo de espaço contínuo. Entrar na nave exige um loading; decolar para o espaço exige um loading; viajar para outro planeta exige um loading. Embora as atualizações recentes (como o modo “Free Lanes”, que facilita a viagem pelo mesmo sistema solar) tenham suavizado essa fragmentação, a transição entre mundos ainda é separada por cortes. Felizmente, no PS5, essas telas pretas raramente duram mais do que três a cinco segundos.
O Fim é Apenas o Começo (Sem Spoilers)
Por fim, é impossível falar do escopo de Starfield sem citar, por alto, a forma como ele lida com o seu fim de jogo (Endgame). Sem entrar em terrenos de spoilers profundos sobre a missão principal da Constelação, o jogo possui a integração narrativa de Novo Jogo Plus (New Game+) mais inteligente da história da mídia.
O conceito de recomeçar a campanha não é apenas uma mecânica de menu; faz parte da própria mitologia (o lore) central do universo de Starfield. Atravessar o véu do universo para iniciar um novo “ciclo” muda interações com personagens, abre novas perspectivas, gera universos paralelos bizarros (onde facções inteiras podem ter sido aniquiladas antes mesmo de você chegar) e questiona a sua moralidade: você sacrificaria todos os seus laços e tudo o que construiu em nome de desvendar os segredos do infinito?
É uma sacada filosófica brilhante do diretor Todd Howard, que transforma a vontade de rejogar a campanha em um elemento canônico do enredo.
Considerações Finais
Starfield é um colosso. É um jogo que carrega o peso de uma ambição que a tecnologia atual ainda pena para sustentar de forma totalmente orgânica. Ele não é o simulador absoluto de universo que alguns fãs sonharam antes do lançamento, e a sua decisão de utilizar algoritmos para preencher as galáxias dilui a imersão de exploração livre que tornou o estúdio famoso. A dependência de telas de carregamento para viajar entre as estrelas é um lembrete constante das limitações do seu motor gráfico.
No entanto, quando você foca no que ele faz de melhor, Starfield é insuperável. As tramas políticas e investigativas das facções estão entre os melhores roteiros já escritos pela Bethesda. O tiroteio é robusto e incrivelmente satisfatório, e o construtor de naves é um sistema tão brilhante que merece ser estudado por outras desenvolvedoras da indústria.
Com todas as melhorias visuais, de estabilidade e de locomoção (como o veículo terrestre e os novos mapas de cidades), a versão que aterrissa no PlayStation 5 é a forma definitiva de se vivenciar essa odisseia. Starfield é um prato cheio, transbordando conteúdo, sistemas profundos de RPG e um universo estonteante esperando por quem tem a paciência e a curiosidade de olhar para cima. O salto para o hiperespaço é imperfeito, mas indiscutivelmente inesquecível.
Pontos Positivos
- Escrita e Facções: As missões de grupos como a Frota Escarlate e a Vanguarda da UC são profundas, cheias de reviravoltas e escolhas difíceis.
- Construtor de Naves: O nível de customização da sua frota é absurdo, unindo perfeitamente design estético e layout interior navegável.
- Combate e Gravidade: O tiroteio com uso de mochilas propulsoras (jetpacks) em planetas de gravidade variável é o melhor da história da Bethesda.
- Estética NASA-Punk: A direção de arte entrega um universo de “ficção científica tátil”, cru, metálico e extremamente realista.
- DualSense e Performance (PS5): A imersão tátil do controle e a solidez do modo 60fps transformam a jogabilidade e o peso das armas.
- O REV-8: A chegada do buggy espacial curou os longos períodos de caminhada monótona na exploração da superfície dos planetas.
Pontos Negativos
- Fragmentação do espaço: O jogo ainda depende de dezenas de pequenas telas de carregamento curtas para se locomover entre planetas e edificações.
- A Síndrome Procedural: Pontos de interesse genéricos gerados por IA se repetem rapidamente caso você decida explorar mundos fora da missão principal.
- Gerenciamento de recursos: Mesmo com atualizações, o inventário para administrar toneladas de minérios e itens do dia a dia continua um pouco burocrático e confuso.
Starfield é um triunfo monumental do RPG de ficção científica que, apesar das limitações de locomoção em sua imensidão, brilha como uma supernova quando foca em suas tramas humanas e em seu profundo construtor de naves.
Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC.
A key da análise de Starfield foi gentilmente cedida pela Bethesda para o 240pixels. O nosso muito obrigado ao estúdio .