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Review | Ride 6: A ousadia de sair do asfalto justifica a nova marcha da franquia?

Historicamente, a franquia Ride construiu sua reputação com uma promessa clara: ser o equivalente a Gran Turismo para o mundo das motocicletas. A receita do estúdio italiano Milestone sempre envolveu modelos de motos primorosamente detalhados, gráficos polidos e um modo carreira que, embora imersivo, muitas vezes esbarrava no grind excessivo.

Ao longo de cinco edições, no entanto, uma parcela da comunidade começou a se frustrar. As críticas apontavam para a falta de inventividade, reclamando que a desenvolvedora entregava apenas melhorias incrementais a cada novo lançamento, sem arriscar grandes novidades. Com a chegada de Ride 6, a Milestone tenta dar uma guinada ousada para calar os críticos: além de introduzir dois modelos de pilotagem distintos (“Arcade” e “Pro”), o jogo adiciona, pela primeira vez na história da série, eventos e motos off-road.

Tudo isso foi empacotado sob o pretexto do “Ride Fest”, um modo carreira que flerta descaradamente com a premissa de festivais automobilísticos popularizada por Forza Horizon. Mas será que pegar emprestado conceitos de duas das maiores franquias de quatro rodas do mercado é o suficiente para elevar Ride 6 ao panteão dos jogos de corrida definitivos? O 240pixels vestiu o macacão de couro, ajustou o capacete e foi para a pista (e para a terra) descobrir.

A dualidade da pilotagem: do passeio casual ao simulador exigente

Logo nos primeiros momentos do modo carreira, Ride 6 te coloca diante de uma escolha fundamental que ditará toda a sua experiência: você deve optar entre a física de pilotagem “Arcade”, que é o padrão do jogo, ou abraçar a simulação focada do modo “Pro”.

No início, a diferença pode não parecer drástica, mas algumas curvas depois, a natureza de cada modo se revela. O modo “Arcade” foi desenhado sob medida para quem busca uma experiência casual e sem frustrações. É impressionantemente indulgente; é quase impossível sofrer um acidente grave. Você pode manter os freios acionados até o fundo de uma curva fechada sem medo de perder a traseira ou arruinar a sua corrida, mesmo quando a moto está em um ângulo de inclinação absurdo, digno de um piloto de MotoGP.

Por outro lado, o manuseio “Pro” é destinado aos puristas e conhecedores. Ele exige que o jogador entenda as minúcias de controlar uma motocicleta real, desde a transferência de peso manual do piloto até o controle cirúrgico dos freios dianteiros e traseiros. No modo “Pro”, o peso da moto é sentido a ponto de a pilotagem parecer quase lenta em alguns momentos de transição de direção. Contudo, quando você consegue conectar as linhas de corrida corretas e entende os pontos exatos de inclinação, Ride 6 se transforma em um simulador de motociclismo imensamente gratificante.

Vale ressaltar que a curva de aprendizado no modo “Pro” com todas as assistências desligadas é brutal. Para não passar a maior parte do tempo ralando o asfalto, optar por um meio-termo — como manter o manuseio “Pro”, mas usar freios combinados e trocas de marcha semiautomáticas — costuma ser a melhor estratégia para aprender a física do jogo sem perder a diversão.

Um catálogo de encher os olhos (e as garagens)

Para complementar a pilotagem, o jogo oferece um sistema robusto de eletrônica embarcada. Você pode ajustar parâmetros como anti-wheelie (controle de empinada), controle de tração, freios ABS, freio motor e o mapeamento de combustível diretamente pelo D-pad do controle enquanto pilota. Uma pequena crítica aqui é que o jogo só permite essas alterações com a corrida já em andamento, impedindo que você faça os ajustes finos enquanto aguarda o sinal verde no grid de largada.

Onde Ride 6 não decepciona de forma alguma é no seu catálogo. O jogo ostenta a maior seleção de motocicletas da história da franquia, prometendo mais de 340 máquinas (contando com futuros conteúdos via DLC). A variedade é formidável: vai desde superbikes modernas e clássicas até ciclomotores, introduzindo pela primeira vez as categorias de motos de enduro, motard e as exóticas e pesadas baggers.

As motos, adquiridas através das concessionárias de novos e usados do jogo, são reproduzidas com um nível de detalhe fenomenal. Cada componente brilha e reflete a luz de forma realista. Para os entusiastas da customização mecânica, é possível comprar peças de performance para melhorar o desempenho nas pistas. O jogo também conta com um vasto leque de peças e equipamentos oficialmente licenciados — como capacetes, macacões e botas da Alpine Stars, Arai e Shoei — embora a interface seja um pouco irritante, exigindo o pressionamento de botões três vezes apenas para confirmar a instalação de uma nova peça.

Ride Fest e o peso do modo Carreira

Toda a estrutura do modo principal gravita em torno do “Ride Fest”, apresentado como um grandioso festival de motociclismo que abrange diferentes disciplinas. A ideia de misturar provas de enduro na terra com corridas em circuitos tradicionais é excelente no papel, mas a execução deixa a desejar.

O problema do “Ride Fest” é a falta de coesão. Ao contrário de Forza Horizon, onde o mundo aberto amarra a experiência e a atmosfera de festival é palpável, os eventos de Ride 6 parecem completamente isolados uns dos outros. Não há uma narrativa que guie o jogador, nem um mapa aberto para explorar entre as corridas. Se o selo “Ride Fest” fosse simplesmente removido dos menus, a ação na pista não sofreria nenhuma alteração, provando que a temática de festival é mais uma camada de maquiagem superficial do que uma fundação real para o jogo.

Para tentar quebrar a monotonia do grind clássico da carreira, o estúdio adicionou corridas contra 10 “Lendas” do motociclismo. São eventos curados onde você enfrenta ícones reais em confrontos diretos (um contra um). Vencer permite que você roube a moto e o equipamento do piloto derrotado. Embora seja uma ideia reciclada de jogos de mais de 20 anos atrás (como a série TT Superbikes), funciona bem para variar o ritmo. A seleção de lendas, no entanto, levanta sobrancelhas: enquanto temos nomes de peso absoluto como Casey Stoner e Ian Hutchinson, a inclusão de pilotos como Niccolò Canepa — que jamais venceu uma única corrida na MotoGP ou WorldSBK — parece um tanto deslocada.

A progressão da carreira como um todo pode se tornar cansativa. O jogo é visivelmente “mão de vaca” na hora de distribuir o melhor conteúdo, escondendo pistas famosas e os tão aguardados eventos de resistência (endurance) apenas nas etapas finais do jogo, forçando o jogador a passar horas em eventos menos empolgantes para desbloquear a verdadeira diversão.

Pistas fantásticas e a tropeçada no Off-Road

Quando se trata do circuito asfaltado, Ride 6 brilha intensamente. A física de peso e a previsibilidade do manuseio tornam as corridas em autódromos tradicionais uma experiência fenomenal. A seleção de pistas é um dos pontos altos do jogo, apresentando 45 circuitos magistralmente renderizados (incluindo futuros DLCs).

O elenco inclui pesos-pesados como o lendário Nürburgring Nordschleife, Road America e o Autódromo Internacional do Algarve, além do retorno de traçados clássicos de rua como North West 200, Ulster GP e Southern 100, vindos de Ride 5. Infelizmente, para a tristeza dos fãs de velocidade insana, o infame percurso da Ilha de Man TT ficou de fora. Algumas pistas fictícias, como Kanto Temples, destoam da qualidade geral e parecem mais uma obrigação burocrática do que locais divertidos para pilotar.

A grande decepção, contudo, repousa justamente na maior novidade do jogo: o off-road. Os novos ambientes voltados para as motos de terra — como a Blue Wave Arena, a região da Capadócia (Turquia) e o Parco Enduro delle Alpi — pecam pela falta de relevo. Correr com motos de rally raid em terrenos que são quase totalmente planos parece um desperdício de potencial e remove a dificuldade e o charme inerentes à modalidade.

Para piorar, a física das motos de terra não se diferencia do asfalto tanto quanto deveria. Embora a roda traseira patine ao receber aceleração máxima, a maneira mais rápida de vencer na terra em Ride 6 é pilotar de forma limpa e precisa, quase como se você estivesse em um circuito pavimentado. Além disso, receber penalidades rigorosas por corte de pista em provas de enduro — uma disciplina conhecida por sua natureza mais livre — quebra a imersão.

Inteligência Artificial agressiva e o espetáculo visual da Unreal Engine 5

Competir em Ride 6 exige nervos de aço, muito por conta da Inteligência Artificial. O jogo possui uma opção de dificuldade ajustável que calibra a velocidade dos oponentes com base no seu desempenho. Essa funcionalidade se mostra bastante competente, garantindo corridas disputadas até as últimas voltas do modo carreira.

Os pilotos controlados pelo computador são agressivos e “humanos”. Se você errar a linha e abrir demais uma curva, eles não hesitarão em mergulhar por dentro para roubar a posição. Eles também cometem erros, se enroscando uns com os outros e voando espetacularmente para as caixas de brita. O grande problema dessa agressividade surge na primeira volta, com o pelotão aglomerado: é comum (e incrivelmente frustrante) levar um toque na roda traseira e ser jogado no chão por um piloto da IA que parece agir como se você fosse invisível.

Do ponto de vista estético, não há margem para debate: Ride 6 é belíssimo. Tirando proveito da robusta Unreal Engine 5, a Milestone entrega um nível de detalhamento visual que coloca no chinelo as tentativas recentes de estúdios concorrentes.

Na atual geração de consoles e PCs, a experiência é fluida como seda. O clima dinâmico e as transições realistas de tempo e iluminação criam atmosferas imersivas, consolidando o título como uma verdadeira “máquina de fazer shorts para o YouTube”. Há alguns deslizes técnicos menores, como sombras de motos desaparecendo ou o notório carregamento de shaders da Unreal Engine em momentos pontuais, mas nada que arranhe a experiência de gameplay. O áudio também merece aplausos; os roncos dos escapamentos são distintos e capturam a essência de cada motor, de um vibrante V-Twin a um estridente quatro cilindros em linha. O único detalhe que passou batido foi o fato de a rotação do motor não subir quando a moto inclina, uma minúcia que fãs mais hardcore certamente notarão.

Considerações Finais

Ride 6 é uma obra de contrastes. O jogo falha em suas maiores inovações: as pistas off-road são planas e desinteressantes, e o modo carreira “Ride Fest” tenta imitar a aura de Forza Horizon sem entregar a estrutura e o mundo que sustentam esse tipo de festival. O progresso engessado que esconde o melhor conteúdo no final também exige paciência do jogador.

Entretanto, quando o foco se volta estritamente para o asfalto, o título da Milestone brilha de forma absoluta. A física de pilotagem refinada — dividida inteligentemente entre acessibilidade e simulação extrema —, combinada com um catálogo de motos invejável e um espetáculo visual proporcionado pela nova engine, formam um núcleo mecânico incontestavelmente sólido.

Ele pode não alcançar o status de “compra obrigatória” universal reservado aos titãs do gênero de corrida, mas para aqueles que têm gasolina correndo nas veias, não há dúvidas: Ride 6 é, hoje, o melhor e mais completo pacote sobre duas rodas disponível nos videogames.


Pontos Positivos

  • Visual impressionante: O uso da Unreal Engine 5 entrega gráficos lindíssimos, clima dinâmico e motos modeladas à perfeição.
  • Física para todos: A divisão clara entre os controles “Arcade” (indulgente) e “Pro” (desafiador e tátil) agrada a novatos e veteranos.
  • Catálogo massivo: Mais de 340 motos, incluindo a inédita adição de modelos enduro e baggers, além de vastas opções de customização oficial.
  • Lista de pistas de excelência: 45 circuitos fantásticos, incluindo Nürburgring e adorados traçados de rua.
  • IA adaptável: Oponentes desafiadores e com comportamento agressivo e realista.

Pontos Negativos

  • Off-Road decepcionante: Pistas de terra muito planas, onde a física da moto não exige uma adaptação real do jogador.
  • Modo Carreira (Ride Fest) raso: A temática de festival não tem profundidade narrativa ou mundo aberto, soando apenas como um menu disfarçado.
  • Ritmo arrastado: O grind do modo carreira esconde as pistas mais legais e eventos longos apenas nas etapas finais do jogo.
  • Tropeços da IA: Falta de percepção espacial dos oponentes na primeira volta causa acidentes frustrantes na traseira do jogador.

Ride 6 derrapa feio ao sair do asfalto, mas quando foca no que faz de melhor, entrega o ápice da simulação de motovelocidade da geração.

key cedida para review.

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