Os roguelikes se consolidaram como um dos gêneros mais populares da cena independente. Porém, junto da popularidade vem o desgaste: quantos jogos já não vimos que repetem a mesma estrutura de masmorras, inimigos infinitos e progressão procedural? Da mesma forma, a mitologia nórdica é outro terreno já explorado à exaustão, seja em grandes produções como God of War e Assassin’s Creed: Valhalla, ou em títulos independentes que buscaram reinterpretar os deuses e guerreiros vikings de diferentes formas.
É nesse cruzamento entre a familiaridade do gênero e o excesso de referências à cultura nórdica que surge Jötunnslayer: Hordes of Hel, desenvolvido pela Games Farm e publicado pela Grindstone. A proposta parece, de início, mais uma repetição, mas a execução mostra que ainda há espaço para novidades quando os elementos são bem combinados.

Entre deuses e condenados
A premissa coloca o jogador na pele de guerreiros caídos que precisam provar seu valor enfrentando hordas infinitas de inimigos até desafiar os imensos Jotuns, criaturas colossais que reinam em cada um dos nove mundos da mitologia nórdica. Não há uma narrativa profunda ou elaborada – a motivação é simples e direta: sobreviver e conquistar o título de verdadeiro Jötunnslayer.
A ausência de enredo não chega a ser um problema imediato, já que o foco está totalmente na jogabilidade. Ainda assim, é inegável que falta uma amarra narrativa capaz de sustentar a progressão a longo prazo. Para muitos jogadores, essa ausência pode gerar uma sensação de vazio após algumas horas.

Mecânicas e progressão
O jogo adota uma perspectiva isométrica que remete aos action RPGs clássicos. Cada classe possui ataques básicos automáticos, além de uma esquiva e um poder especial que entram em recarga após o uso. Essa automatização dos golpes pode causar estranheza no início, mas logo se mostra uma escolha de design interessante: ao não precisar se preocupar em mirar cada ataque, o jogador tem espaço para se concentrar em movimentação, gerenciamento de espaço e ativação de habilidades no momento certo.
Conforme avança, o herói recebe bênçãos de divindades como Thor, Loki ou Freya. Essas melhorias podem transformar completamente a forma de jogar: tempestades elétricas, ilusões venenosas, golpes divinos e até efeitos passivos que se acumulam run após run. Essa variedade dá ao jogador liberdade para construir estratégias únicas a cada tentativa.

Além das bênçãos temporárias, há também progressão permanente: moedas e recursos obtidos em cada jornada podem ser investidos para desbloquear novas habilidades, personagens e equipamentos. Isso garante um senso de evolução mesmo após falhas consecutivas, mantendo o incentivo para continuar.
A intensidade das batalhas
O combate é o ponto mais forte do jogo. As hordas de inimigos crescem em número e variedade a cada mundo, forçando o jogador a improvisar e adaptar seu estilo. O ritmo é viciante, sempre desafiando a resistir “só mais uma rodada” antes de desligar o console.
Por outro lado, os cenários deixam a desejar. Apesar de bem representarem a essência de cada reino – gelo em Niflheim, fogo em Muspelheim, veneno em Helheim –, os mapas são planos e pouco inspirados. A falta de elementos táticos, como corredores estreitos ou áreas que favoreçam estratégias de contenção, reduz as possibilidades de exploração e contribui para a repetitividade.
Outro ponto fraco está nos objetivos secundários. Missões de coletar itens, dominar territórios ou destruir portais acabam se repetindo em excesso, sem oferecer variações que realmente renovem a experiência.

Arte e apresentação
Se o design dos mapas decepciona, a direção de arte compensa em outros aspectos. Personagens, inimigos e principalmente os Jotuns são visualmente impactantes, transmitindo imponência e brutalidade. A cada novo chefe, há uma expectativa não apenas pelo desafio, mas também pelo espetáculo visual.
A interface também surpreende pela clareza e coesão, evitando o excesso de informações que costuma atrapalhar roguelikes mais complexos. A navegação entre runs é simples, ainda que algumas escolhas – como retornar à tela inicial após cada cenário – possam quebrar o ritmo.
Prós e Contras
Prós
- Combate intenso e viciante, com curva de dificuldade desafiadora.
- Grande variedade de bênçãos e habilidades que mudam a estratégia a cada run.
- Progressão permanente bem implementada, mantendo o jogador motivado.
- Design de personagens e chefes impressionante.
Contras
- Level design simplório e pouco criativo.
- Missões secundárias repetitivas.
- Ausência de narrativa relevante pode reduzir a motivação a longo prazo.
- Vida útil menor para jogadores que buscam variedade ou profundidade.
Veredito
Jötunnslayer: Hordes of Hel é um roguelike que se apoia em fórmulas já conhecidas, mas consegue entregar um loop de jogabilidade viciante e satisfatório. A experiência é mais sobre resistir às hordas e acumular poder divino do que sobre imersão narrativa, e nesse aspecto o jogo acerta em cheio.
Porém, sua repetitividade e o design de fases pouco inventivo podem afastar aqueles que buscam variedade ou histórias mais envolventes. Para os fãs de roguelikes, há aqui um desafio sólido e estiloso; para os demais, pode ser apenas mais um entre tantos outros títulos inspirados na mitologia nórdica.
Jötunnslayer: Hordes of Hel está disponível para PlayStation 5, Xbox Series e PC, com legendas em português do Brasil. Esta análise foi realizada na versão de Xbox com um código fornecido pela Grindstone.