O mercado de jogos independentes possui um dom especial para resgatar lendas esquecidas e transformá-las em experiências interativas. Quando um estúdio decide olhar para a sua própria cultura em vez de reciclar as mesmas mitologias nórdicas ou gregas de sempre, o resultado costuma transbordar charme. É exatamente essa a proposta do estúdio espanhol JanduSoft com seu mais novo título, Manairons.
Lançado no dia 19 de fevereiro de 2026 para os consoles da atual geração e PC, o jogo se apresenta como um simpático jogo de plataforma 3D enraizado no rico (e pouco explorado nos videogames) folclore da Catalunha. Ele tinha absolutamente tudo para ser aquele comfort game perfeito para relaxar durante um final de semana chuvoso. No entanto, por baixo de sua direção de arte cativante, esconde-se uma barreira técnica que testa a paciência do jogador.
Viajamos até os Pirineus para conferir essa aventura mágica, e abaixo você confere o nosso veredito completo.
Magia ancestral contra a fumaça do progresso
A trama de Manairons nos leva a uma versão fantasiosa dos Pirineus, uma cordilheira montanhosa onde lendas antigas começam a colidir violentamente com o avanço da industrialização. O jogador assume o controle de Nai, uma criatura mítica conhecida como manairó. Nosso diminuto herói desperta após passar séculos aprisionado dentro de um “canut” — um artefato mágico de origens e propósitos bastante suspeitos.
Libertado de seu longo sono por uma bruxa, Nai recebe um fardo pesado: ele precisa recuperar o canut e impedir que o caos continue se espalhando pela região. O antagonista dessa história é Llorenç, um latifundiário sem grandes traços de carisma, mas com uma ambição desmedida. Munido de máquinas fumegantes, Llorenç escravizou os outros manairons para forçar a industrialização da pacata vila de Vilamont. O impacto é desolador: o comércio local fechou as portas, os habitantes vivem trancados e aterrissados em suas casas, e a natureza cede espaço para as engrenagens.
A premissa narrativa não busca ser complexa ou cheia de reviravoltas cinematográficas. A sua grande força está justamente na simplicidade de um conto folclórico regional. Jogar Manairons é uma oportunidade deliciosa de ter contato com a cultura catalã, fugindo das narrativas saturadas da indústria e entregando uma história leve e carismática.

A melodia da exploração: o feijão com arroz bem temperado
No que diz respeito ao gameplay, a JanduSoft optou por jogar seguro. Manairons não tenta reinventar a roda dos jogos de plataforma 3D, mas executa o básico de forma muito competente, adicionando pequenos toques de criatividade que mantêm a jornada interessante. O ciclo de jogo gira em torno dos comandos clássicos: pular com precisão, escalar estruturas e explorar cada canto do mapa.
O grande diferencial mecânico surge logo nos primeiros minutos de campanha, quando Nai encontra uma flauta mágica. Este instrumento não serve apenas como a sua principal ferramenta de ataque e defesa contra os capangas de Llorenç, mas é também a chave para a exploração. A mecânica musical exige que o jogador toque sequências de notas específicas para interagir com o cenário e resolver quebra-cabeças. Dependendo da melodia entoada, Nai consegue mover pedras colossais, criar atalhos para alcançar plataformas elevadas ou desbloquear passagens secretas.

A estrutura do mundo é dividida de maneira inteligente. Vilamont funciona como uma cidade principal (hub), de onde o jogador acessa as diferentes zonas do jogo. Cada fase culmina em uma clássica batalha contra um chefe (boss fight). Embora esses confrontos finais não exijam reflexos dignos de um jogador profissional, eles são divertidos e mecanicamente satisfatórios.
Um toque curioso no design do jogo é a inspiração no gênero Souls-like para o seu sistema de checkpoints. Espalhados pelas fases, existem sofás confortáveis que funcionam como fogueiras. Ao sentar e descansar, Nai recupera seus pontos de vida (HP) e restaura seus recursos. A pegadinha? Fazer isso faz com que todos os inimigos derrotados na área voltem à vida. Isso adiciona uma leve camada de estratégia sobre quando e onde vale a pena parar para recuperar o fôlego. E mesmo com um ciclo que poderia soar repetitivo (explorar, resolver puzzles, pular, lutar e enfrentar o chefe), o level design é variado o suficiente para manter a experiência sempre fresca.
O charme nostálgico e a atmosfera
Visualmente, não espere texturas ultrarrealistas ou contagem massiva de polígonos. Os gráficos de Manairons carregam uma simplicidade técnica que remete muito aos jogos da geração do PlayStation 3. No entanto, o que falta em poderio gráfico sobra em direção de arte. O jogo possui uma identidade visual encantadora, com cenários estilizados que dão vida à transição entre as montanhas verdes e o maquinário industrial invasivo.
A parte sonora segue o mesmo caminho modesto. A trilha sonora e o design de áudio não vão disputar prêmios de fim de ano, mas cumprem o seu papel de forma honesta, envelopando a ambientação do folclore catalão sem atrapalhar a experiência.

A pedra no sapato: a falta de polimento
Infelizmente, é impossível analisar Manairons sem falar do seu estado técnico. E é aqui que o jogo perde muito do seu brilho.
Para o público brasileiro, o primeiro baque é a ausência de localização em português (PT-BR). Compreendemos que a tradução gera custos para estúdios independentes, mas no cenário atual, onde equipes minúsculas entregam jogos com legendas impecáveis no nosso idioma, a ausência do PT-BR é uma falha que certamente afastará uma parcela considerável de jogadores.
Porém, o grande vilão do jogo não é Llorenç, mas sim os bugs. A experiência é frequentemente interrompida por falhas amadoras. Durante a nossa jogatina, encontramos erros de progressão, textos quebrados, cutscenes que não carregam corretamente e falhas visuais graves no combate aéreo. A coleta de moedas muitas vezes falha, e a física do jogo prega peças cruéis: é comum ver o adorável Nai atravessando paredes sólidas ou sendo empurrado para o abismo ao encostar na quina de uma plataforma.
A JanduSoft lançou uma atualização de primeiro dia (day one patch) que amenizou alguns problemas visuais e consertou detecções de bordas, mas a sensação persistente é de que Manairons precisava de alguns meses a mais no forno. O cuidado técnico não acompanhou a criatividade da equipe.
Considerações finais
Apesar de todos os tropeços técnicos, é difícil odiar Manairons. A aventura de Nai é recheada de charme, boas ideias e uma atmosfera folclórica que merece ser conhecida. A campanha principal pode ser concluída em algo entre 5 e 8 horas, dependendo do quanto você se dedica à exploração. Contudo, o título oferece um excelente fator de rejogabilidade para os completistas, graças à vasta quantidade de itens colecionáveis e missões secundárias espalhadas por Vilamont.
O custo-benefício da obra é muito justo. O título da JanduSoft é uma prova de que nem todo jogo precisa revolucionar a indústria para ser divertido. Ele entrega um carisma raro, mas exige que o jogador feche os olhos para as suas diversas falhas de acabamento. Se você for uma pessoa paciente, encontrará uma magia singela escondida nas montanhas dos Pirineus.
Pontos positivos
- Mergulho encantador e criativo em um folclore pouco explorado (Catalão).
- Mecânica da flauta mágica traz frescor aos quebra-cabeças e à exploração.
- O sistema de fogueiras (sofás) à la Souls adiciona estratégia ao avanço pelas fases.
- Level design variado que impede o jogo de se tornar repetitivo.
- Fator replay elevado com muitas missões secundárias e coletáveis.
Pontos negativos
- O jogo é assolado por diversos bugs técnicos de colisão, física e progressão.
- Ausência imperdoável de legendas em Português do Brasil (PT-BR).
- Os combates contra os chefes, embora divertidos, não oferecem grande desafio.
Manairons é uma aventura repleta de personalidade e charme cultural, mas que esbarra constantemente na própria falta de polimento técnico.
Plataformas: PC, PlayStation 5, Xbox Series S|X e Nintendo Switch.