O gênero roguelite encontrou um terreno extremamente fértil na indústria nos últimos anos, e a mais nova aposta a tentar cravar seu nome nesse espaço é Soulslinger: Envoy of Death. Desenvolvido pela Elder Games e publicado pela Headup em parceria com a Beep Japan, o título mistura o ritmo frenético dos jogos de tiro em arena com a progressão cíclica punitiva característica do gênero, chegou aos consoles PlayStation 5 e Xbox Series X|S.

Um faroeste no além-vida
A premissa narrativa nos joga diretamente no submundo com uma roupagem de faroeste sombrio. Você controla um pistoleiro sem nome que, já morto, acorda no Limbo e é rapidamente recrutado pelo próprio Morte. Sua missão? Eliminar O Cartel, uma organização implacável e perigosa que está roubando almas e quebrando a ordem natural da vida após a morte.
Em troca desse serviço arriscado, o protagonista busca respostas sobre seu próprio passado e a chance de reencontrar uma pessoa que perdeu em vida. A história se desenrola de forma muito bem cadenciada a cada retorno ao mundo central do jogo, chamado Haven. Lá, você interage com personagens carismáticos, como a misteriosa Val e o imponente Morte, descobrindo fragmentos de memórias e novos diálogos que dão um propósito narrativo maior a cada tentativa fracassada.

A dança das balas e portais
O núcleo da experiência de Soulslinger é o seu combate. A jogabilidade flui através de portais: você entra no Limbo, limpa salas fechadas no estilo arena contra ondas de inimigos, e então deve escolher entre portas aleatórias que oferecem recompensas variadas. Essas recompensas vão desde materiais para melhorias definitivas até essências elementais e vantagens que duram apenas durante aquela “run” específica. Cada reino apresenta um subchefe na metade do trajeto e um chefe final antes de permitir seu avanço.
O jogo também quebra o ritmo dos tiroteios com salas especiais bastante criativas. Nelas, é possível barganhar com o Morte para receber vantagens poderosas em troca de alguma penalidade, ou gastar seu ouro com um pitoresco mercador esqueleto pirata. No arsenal, o pistoleiro conta com uma pistola, uma espingarda e um soco corpo a corpo, que é útil tanto para causar dano quanto para quebrar caixas do cenário.

A movimentação exige agressividade constante, apoiando-se fortemente em saltos e esquivas rápidas (dashes). Um detalhe mecânico excelente é o sistema de recarga ativa: atirar no momento exato durante a animação acelera o recarregamento da arma, adicionando uma camada extra de tensão aos combates frenéticos. O jogador ainda pode equipar até três habilidades simultâneas, como invocar um golem aliado ou eletrificar projéteis, além de usar essências que adicionam efeitos de veneno, dano explosivo ou cura.
Os tropeços no purgatório
Apesar da estrutura sólida, a execução técnica de Soulslinger esbarra em problemas notáveis. O combate por vezes parece frouxo, com a mira falhando em entregar a exatidão esperada nos momentos em que a tela está tomada pelo caos. Os inimigos frequentemente se movem de maneira errática e muitos compartilham o mesmo design esquelético básico, o que acentua o peso da repetição a longo prazo. Os chefes, embora visualmente muito imponentes, costumam entregar batalhas decepcionantes que se limitam a invocar mais ondas de inimigos enquanto andam lentamente pela arena, disparando ataques que por vezes parecem injustamente impossíveis de desviar.

A ambientação do Limbo — descrita na história como um local moldado por memórias e força de vontade — não se traduz tão bem nos cenários tridimensionais. A estética fantástica de faroeste, com correntes, tábuas de madeira e céus poeirentos, é muito atraente no início, mas as salas rapidamente se tornam um borrão visual devido à falta de variedade de level design.
Problemas técnicos também prejudicam a imersão. É possível, por exemplo, atravessar objetos sólidos como grandes pedras no cenário. Além disso, o título sofre com falhas irritantes onde inimigos não nascem corretamente ou saem do mapa, forçando o jogador a reiniciar a rodada. Um detalhe de design particularmente frustrante é que, ao sair para o menu principal no meio de uma partida e tentar continuar depois, o jogo retoma na mesma sala, mas retira todas as vantagens (perks) específicas conquistadas naquela “run”.
Atmosfera e veredito
Jogando no PS5, a performance geral é majoritariamente estável, apresentando apenas pequenas quedas de quadros durante lutas excessivamente densas. A forte direção de arte, com seus efeitos brilhantes de fliperama e alto contraste, acaba compensando a qualidade técnica oscilante de algumas texturas que parecem inacabadas. No departamento de áudio, a trilha sonora embalada por guitarras e tons sombrios encaixa perfeitamente. Contudo, os efeitos das armas carecem de um impacto auditivo mais pesado, e a repetição sonora cansa nas primeiras áreas.

A dificuldade de Soulslinger é considerada mediana. O início pode ser punitivo devido aos equipamentos fracos, mas o desafio despenca consideravelmente à medida que você investe recursos em melhorias permanentes em Haven. Aumentar a dificuldade oferece recompensas melhores, mas não aprofunda as mecânicas. Com uma duração média de 12 a 15 horas para uma campanha completa (dependendo muito da sua sorte com habilidades aleatórias), o título entrega uma experiência compacta.
No final das contas, Soulslinger: Envoy of Death é um jogo carregado muito mais pelo seu excelente clima atmosférico e ambição do que por sua profundidade mecânica. A pouca variedade de armas e as construções de personagem (builds) rasas impedem que ele alcance todo o seu potencial. Ainda assim, entrega tiroteios divertidos e constrói uma fundação promissora para uma eventual sequência.
Pontos positivos
- Narrativa instigante ambientada em um Limbo com forte atmosfera de faroeste sombrio.
- Mecânica de recarga ativa adiciona tensão e recompensa os reflexos durante o combate.
- A progressão em Haven e o ritmo da repetição do roguelite são balanceados e acessíveis.
- Trilha sonora de qualidade que reforça a ambientação pesada do mundo.
Pontos negativos
- Pouca variedade de armas e falta de diversidade real nas construções de builds.
- Repetição visual dos cenários e design de inimigos muito semelhantes entre si.
- Encontros contra chefes se resumem a invocar ondas de capangas e usar golpes quase impossíveis de esquivar.
- Presença de bugs que quebram a partida (inimigos sumindo) e sistema de salvamento que pune o jogador ao fechar o menu.
Soulslinger: Envoy of Death constrói um universo cheio de estilo, entregando um roguelite funcional que carece de mais profundidade mecânica para ser inesquecível.
Plataformas: PC, PlayStation 5 e Xbox Series X|S.