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Review: Saborus — quando o horror não está no monstro, mas no sistema

Saborus é um daqueles jogos que causam desconforto não apenas pelo que mostram, mas principalmente pelo que representam. Ao colocar o jogador no controle de uma simples galinha tentando escapar de um complexo industrial de abate, o game abandona qualquer tentativa de glamourizar sua proposta. Aqui, o terror não vem de criaturas sobrenaturais ou jumpscares baratos, mas da banalidade da crueldade, da repetição mecânica e da indiferença humana.

A premissa é simples e direta: você caiu da linha de produção e, por puro acaso, ganhou uma chance de sobreviver. Não há heroísmo, discursos elaborados ou grandes escolhas morais. O instinto de fuga é a única força que move a protagonista, e isso se reflete em toda a estrutura narrativa e jogável do título.

Uma fuga guiada pelo acaso

Narrativamente, Saborus opta por contar sua história de forma ambiental. Documentos, cenários e acontecimentos ao fundo revelam aos poucos o funcionamento daquele lugar e as experiências grotescas realizadas ali. Não há um arco clássico de personagem, tampouco desenvolvimento emocional no sentido tradicional — afinal, você é uma galinha. Essa decisão funciona melhor do que parece, pois reforça a sensação de impotência e desorientação constante.

O jogo tenta, claramente, levantar reflexões sobre a indústria da carne e o tratamento de animais, mas faz isso sem apontar diretamente para marcas, empresas ou discursos militantes explícitos. Ainda assim, a mensagem é clara e, em alguns momentos, perturbadora. O problema é que essa intenção séria acaba sendo diluída por escolhas estéticas e narrativas que destoam do tom pretendido.

Há momentos em que o jogo flerta com um humor estranho, quase cartunesco, que quebra a imersão e enfraquece o impacto emocional. Vilões caricatos, exageros visuais e certas decisões artísticas parecem existir mais pela excentricidade do que pela necessidade narrativa, criando uma identidade tonal inconsistente.

Stealth, repetição e sobrevivência

No campo da jogabilidade, Saborus se define como um stealth survival com puzzles simples. O jogador precisa evitar funcionários, se esconder em dutos, utilizar o ambiente a seu favor e resolver pequenos quebra-cabeças para avançar. A dificuldade influencia diretamente o comportamento dos inimigos, tornando a experiência mais punitiva ou permissiva.

Apesar de funcionar bem nos primeiros momentos, a estrutura do gameplay se torna repetitiva rapidamente. Grande parte do progresso envolve encontrar objetos, levá-los até pontos específicos e ativar mecanismos. Essa fórmula se repete diversas vezes, mudando apenas o cenário ou o tipo de obstáculo, o que acaba gerando uma sensação de desgaste mesmo em um jogo relativamente curto.

Há ideias interessantes — como o uso de ventiladores, energia elétrica e passagens improvisadas —, mas elas não evoluem o suficiente ao longo da campanha. O jogo ensina tudo o que tem a oferecer muito cedo, e depois apenas reapresenta as mesmas situações sob novas roupagens.

Um ambiente que incomoda — para o bem e para o mal

Visualmente, Saborus aposta em ambientes industriais claustrofóbicos, cheios de sujeira, restos orgânicos e iluminação opressiva. Quando funciona, o impacto é forte e desconfortável, exatamente como deveria ser. O problema é que, especialmente em consoles menos potentes, a execução técnica compromete essa proposta.

Texturas borradas, iluminação mal calibrada e excesso de sombras dificultam a leitura do cenário em diversos momentos. Isso não gera necessariamente dificuldade intencional, mas frustração, principalmente ao tentar se locomover em áreas mais escuras.

A trilha sonora e o design de áudio cumprem bem seu papel. Sons ambientes, alarmes, passos e, principalmente, os ruídos dos animais criam uma atmosfera pesada e emocionalmente desgastante. É um jogo que faz questão de lembrar o jogador, o tempo todo, de onde ele está — e isso pode ser perturbador para pessoas mais sensíveis ao tema.

Um conceito forte, execução irregular

Saborus é um jogo com uma ideia poderosa e relevante, mas que sofre ao tentar equilibrar mensagem, jogabilidade e identidade artística. Sua crítica social existe, é válida e incomoda — porém, escolhas narrativas inconsistentes e um gameplay excessivamente repetitivo enfraquecem o impacto final.

Ainda assim, é impossível dizer que se trata de uma experiência esquecível. Mesmo com falhas claras, Saborus provoca reflexão e deixa uma marca desconfortável, exatamente por retratar um horror que não depende de fantasia: ele existe, funciona todos os dias e raramente é questionado.


Pontos positivos

  • Proposta ousada e temática impactante
  • Atmosfera opressiva bem construída em vários momentos
  • Design de áudio eficiente e emocionalmente forte

Pontos negativos

  • Jogabilidade repetitiva após as primeiras horas
  • Tom narrativo inconsistente
  • Problemas técnicos e visuais em algumas plataformas

Veredito final

Saborus não é um jogo fácil de recomendar, mas também não é simples de ignorar. Ele falha em refinar suas mecânicas e em manter uma identidade coesa, mas acerta ao provocar desconforto e reflexão. Um título imperfeito, porém memorável — ainda que não da forma mais agradável.

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