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Review: SYNESTHESIA – Entre Cores, Ciclos e Conspirações

SYNESTHESIA é mais do que uma simples visual novel de mistério futurista. Desenvolvido pela Spire Games e publicado pela Ratalaika Games S.L., o título nos convida a mergulhar em uma narrativa complexa e introspectiva, onde cada cor, gesto e silêncio pode esconder algo maior. Em um cenário que mescla ficção científica e investigação psicológica, o jogo propõe uma reflexão sobre escolhas, memórias e os padrões invisíveis que nos moldam — tudo isso ambientado na enigmática espiral que dá forma ao seu simbolismo central.

Um futuro sensorial

A história se passa em um futuro próximo onde seres humanos começaram a manifestar habilidades conhecidas como ESPs (Percepções Extra-Sensoriais). O protagonista, Ziek, é um desses indivíduos e possui uma forma peculiar de ESP: a sinestesia. Essa habilidade faz com que certos elementos em seu campo visual brilhem com cores vívidas, quase como um alerta inconsciente de que algo importante está à sua frente — mesmo que ele ainda não saiba o motivo.

Ziek vive e estuda no Instituto Huntley, uma organização dedicada a treinar e pesquisar indivíduos com ESPs. No início, a rotina parece leve, até mesmo tranquila. Ele valoriza sua convivência com os amigos Isla, Eris e Jase, vivendo cada momento como se fosse o último. No entanto, à medida que eventos misteriosos se desenrolam, Ziek percebe que o Instituto pode estar escondendo muito mais do que aparenta — e talvez ele mesmo tenha um papel fundamental nesse quebra-cabeça.

Narrativa em espiral

SYNESTHESIA segue uma estrutura narrativa de múltiplas rotas, com uma progressão semilinear que culmina em uma rota verdadeira. A rota inicial, centrada na professora Keller, serve como introdução ao mistério maior e oferece pistas sutis, embora sem aprofundamento emocional. As rotas de Isla e Eris, por outro lado, exploram os passados traumáticos das personagens e abrem espaço para pequenos laços românticos — sem nunca abandonar a linha investigativa.

O destaque, no entanto, fica para a “rota verdadeira”, onde a espiral narrativa converge. É nela que o jogo aborda com mais profundidade os conceitos de identidade, repetição e propósito. A resolução dos mistérios é satisfatória, mesmo que o ritmo inicial seja lento e a introdução demore a engatar. Felizmente, quando o enredo engrena, é difícil largar o controle — ou melhor, o botão de avanço de texto.

Laços que resistem

Apesar de personagens iniciarem de forma um tanto estereotipada, há um trabalho sólido de desenvolvimento emocional. Ziek, embora inicialmente bobo e despreocupado, revela uma sensibilidade madura conforme as peças se encaixam. Isla e Eris ganham destaque não apenas por suas histórias, mas também pela maneira como desafiam e apoiam Ziek. A amizade entre o grupo é convincente, cheia de diálogos que oscilam entre humor leve e confissões dolorosas.

O único personagem que acaba ficando à margem é Jase. Embora tenha presença e carisma, ele não possui uma rota própria, o que limita sua evolução. Sua ausência em momentos-chave faz com que ele pareça um elo solto em uma trama que valoriza tanto os laços interpessoais.

Entre a estética e o conteúdo

Visualmente, SYNESTHESIA tem altos e baixos. As ilustrações são belas, especialmente nas CGs, mas há um desbalanceamento perceptível no cuidado com os personagens: as garotas têm design mais refinado, enquanto os personagens masculinos parecem menos trabalhados. Isso quebra um pouco a imersão e dá a sensação de que o elenco feminino teve prioridade visual.

O jogo também é todo dublado, com exceção de Ziek. A dublagem é uma mistura de vozes reais e síntese de fala, o que pode soar mecânico em alguns momentos. Além disso, o contraste entre o texto escrito em inglês britânico e as vozes com sotaque americano contribui para uma sensação de descompasso.

As mecânicas interativas incluem movimentação por mapas, puzzles e escolhas narrativas. Os puzzles, embora poucos, não impressionam — são simples e por vezes confusos. Felizmente, o jogador pode optar por ignorá-los. O sistema de escolhas, no entanto, é eficaz, com uma árvore de progresso acessível por meio de um prático flowchart. Isso facilita muito a navegação entre as rotas e evita frustração, especialmente após finais ruins.

Uma obra imperfeita, mas significativa

O maior mérito de SYNESTHESIA está na sua temática. A espiral que representa o jogo é mais do que um símbolo visual: ela é uma metáfora para as decisões, para os ciclos de dor e cura, para a busca por significado em meio ao caos. Em um mundo onde tudo parece repetir-se, o jogo questiona: é possível escapar de nossos padrões? Ou estamos condenados a repetir nossos erros, geração após geração?

A forma como essas reflexões são entrelaçadas na narrativa é, na maior parte do tempo, bem executada. Em outros momentos, o jogo tropeça no excesso de verbosidade ou em diálogos inconsistentes. Isso não chega a comprometer a experiência, mas impede que SYNESTHESIA alcance um patamar mais elevado dentro do gênero.


Prós:

  • Enredo bem construído e com temas profundos
  • Personagens com desenvolvimento emocional consistente
  • Sistema de rotas eficiente com flowchart acessível
  • Arte agradável com CGs de destaque
  • Extras que valorizam o pós-jogo (epílogos, enciclopédia, vídeos)

Contras:

  • Escrita inconsistente em alguns trechos
  • Dublagem irregular e pouco envolvente
  • Falta de destaque para personagens secundários como Jase
  • Puzzles simples e pouco inspirados

SYNESTHESIA não é uma visual novel revolucionária, mas é uma experiência envolvente e emocionalmente satisfatória para quem busca mistério com profundidade e uma boa dose de introspecção. Se você gosta de histórias que exploram o impacto das decisões, os ciclos invisíveis que moldam nossas vidas e a beleza das pequenas conexões humanas, essa espiral merece ser percorrida até o fim.

Disponível para Xbox, PlayStation e Nintendo Switch.
Agradecemos à Ratalaika Games S.L. pelo envio da chave para análise.

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