Os roguelikes já provaram há bastante tempo que vieram para ficar. O gênero encontrou uma fórmula extremamente viciante baseada em progressão constante, combate acelerado e partidas que sempre oferecem algo novo. O problema é que, junto com essa popularidade, muitos jogos começaram a parecer versões diferentes da mesma ideia. Realm of Ink surge justamente tentando escapar dessa armadilha.
Desenvolvido pela Leap Studio, o game aposta em uma identidade visual fortíssima, combate extremamente fluído e uma ambientação inspirada em pinturas orientais para criar algo que vai além do simples “clone de Hades”. E embora suas inspirações sejam claras em vários momentos, o título consegue construir personalidade própria graças ao seu universo artístico e à forma como mistura narrativa, ação e progressão.
O resultado é um roguelike estiloso, viciante e surpreendentemente acessível.

Um mundo construído com tinta e memórias
Logo nos primeiros minutos, Realm of Ink chama atenção pela maneira como apresenta seu universo. Tudo parece ter sido desenhado à mão, como se os cenários, personagens e criaturas tivessem acabado de sair de um pergaminho pintado com pinceladas vivas e tintas em movimento.
Existe uma forte inspiração na estética oriental tradicional, mas reinterpretada de maneira moderna e fantasiosa. Os ambientes alternam entre florestas etéreas, templos misteriosos e áreas carregadas de energia sobrenatural, sempre mantendo uma direção artística extremamente consistente.
A narrativa acompanha personagens presos dentro desse “mundo de tinta”, enquanto segredos começam a surgir pouco a pouco durante as runs. Como acontece em muitos roguelikes, a história avança gradualmente conforme o jogador morre, retorna e desbloqueia novas interações.
Mas diferente de vários jogos do gênero, aqui o enredo realmente consegue despertar curiosidade.

Os diálogos possuem personalidade, os personagens têm presença marcante e existe um cuidado genuíno na construção do universo. Mesmo sem exagerar em longas cenas cinematográficas, Realm of Ink consegue criar conexão emocional através de pequenos detalhes, conversas recorrentes e revelações espalhadas ao longo da jornada.
Outro detalhe extremamente importante: a localização em português brasileiro está excelente. Os textos são naturais, bem adaptados e ajudam bastante na imersão, algo que infelizmente ainda não é tão comum em muitos indies do gênero.
Combate rápido, preciso e extremamente viciante
Se o visual impressiona logo de cara, é no combate que Realm of Ink realmente conquista.
A jogabilidade é absurdamente fluída. Cada movimentação, esquiva e ataque possui resposta imediata, criando aquele tipo de ação frenética que faz o jogador entrar no famoso “só mais uma run”. Existe um ritmo constante de movimentação, leitura de padrões e uso estratégico de habilidades que deixa tudo muito satisfatório.

As arenas são recheadas de inimigos diferentes, exigindo atenção constante. Alguns adversários pressionam com ataques rápidos, outros controlam espaço, enquanto certos confrontos obrigam o jogador a alternar entre agressividade e cautela quase o tempo inteiro.
E felizmente o jogo entende muito bem a diferença entre dificuldade e frustração.
Mesmo quando morremos, normalmente fica a sensação de aprendizado, não de injustiça. Aos poucos, começamos a entender melhor os padrões dos inimigos, as combinações de habilidades e as melhores formas de construir nossas runs.
A variedade de builds é outro dos grandes acertos.
Durante as partidas, desbloqueamos poderes passivos, habilidades especiais e melhorias temporárias que alteram bastante o estilo de combate. Algumas combinações incentivam velocidade extrema, outras apostam em ataques massivos em área, enquanto certas builds favorecem estratégias mais defensivas e calculadas.
Essa liberdade ajuda bastante no fator replay, principalmente porque o jogo constantemente incentiva experimentação.

Progressão inteligente e ritmo acessível
Uma das maiores qualidades de Realm of Ink está no equilíbrio entre profundidade e acessibilidade.
O jogo consegue ser convidativo para novatos sem perder complexidade para veteranos do gênero. As mecânicas são fáceis de entender inicialmente, mas existe profundidade suficiente para quem deseja otimizar builds, aprender sinergias e dominar completamente o combate.
Além disso, as runs possuem um ritmo muito agradável.
O progresso acontece de maneira constante, evitando aquela sensação cansativa de precisar jogar dezenas de horas antes de perceber evolução real. Mesmo sessões curtas costumam render desbloqueios, melhorias ou avanços narrativos importantes.
Isso torna Realm of Ink extremamente confortável tanto para partidas rápidas quanto para longas maratonas.
Uma verdadeira obra de arte em movimento
Visualmente, Realm of Ink é facilmente um dos roguelikes mais bonitos dos últimos tempos.
A direção artística consegue transformar cada cenário em algo memorável. Os efeitos de tinta escorrendo, pinceladas surgindo durante ataques e explosões de cores durante as batalhas ajudam a criar uma identidade muito própria.
As animações também merecem destaque. Os personagens possuem movimentos suaves e cheios de personalidade, enquanto os inimigos apresentam designs variados e visualmente marcantes.
Mesmo durante os momentos mais caóticos, o jogo consegue manter boa leitura visual da ação — algo essencial em experiências tão rápidas.
E o mais impressionante é que tudo isso roda de maneira extremamente leve. Realm of Ink é bem otimizado e não exige uma máquina poderosa para entregar uma experiência estável e bonita.
Trilha sonora que acompanha perfeitamente a ação
A trilha sonora faz um excelente trabalho acompanhando o ritmo do jogo.
Durante os combates, as músicas aumentam a intensidade da ação sem exagerar, enquanto momentos mais contemplativos recebem faixas atmosféricas que ajudam bastante na construção da ambientação.
O áudio nunca tenta roubar atenção do gameplay, mas constantemente reforça o clima daquele universo místico construído com tinta, magia e criaturas sobrenaturais.
É uma trilha discreta quando precisa ser… e energética na hora certa.
Vale a pena?
Realm of Ink é uma das surpresas mais interessantes dentro do cenário atual dos roguelikes. Mesmo claramente inspirado por gigantes do gênero, o jogo consegue encontrar identidade própria através de sua direção artística impecável, combate extremamente refinado e um universo cheio de personalidade.
A narrativa poderia avançar em um ritmo um pouco mais acelerado, e jogadores veteranos talvez reconheçam algumas estruturas familiares demais. Ainda assim, a qualidade geral da experiência faz com que esses detalhes tenham pouco impacto diante do conjunto.
O mais importante é que Realm of Ink consegue algo que muitos jogos do gênero falham em entregar: personalidade.
Não é apenas divertido de jogar — é memorável de olhar, ouvir e explorar.
Para fãs de roguelikes de ação, este é facilmente um título que merece atenção.
Prós
- Direção artística belíssima e extremamente estilizada;
- Combate rápido, fluído e muito satisfatório;
- Grande variedade de builds e habilidades;
- Progressão acessível sem perder profundidade;
- Excelente tradução para português brasileiro;
- Ótima otimização e desempenho leve;
- Trilha sonora imersiva e bem aplicada.
Contras
- Estrutura pode soar familiar para veteranos do gênero;
- Narrativa demora um pouco para engrenar totalmente;
- Algumas áreas poderiam ter maior variedade visual após muitas horas;
- Certas runs podem depender bastante da sorte nas combinações de habilidades.
Review realizado com cópia cedida para análise.
Realm of Ink — PC / PS4 / PS5 / Xbox Series X|S