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Review | GRIME 2: O belo, o grotesco e a arte de aparar os golpes da vida

Criar uma sequência para um jogo independente de sucesso é sempre caminhar sobre o fio da navalha. A tentação de seguir o caminho mais seguro — reciclando as mecânicas que deram certo, adicionando dois ou três novos chefes e chamando o pacote de “Parte 2” — é imensa. No entanto, o estúdio Clover Bite (nascido dentro da Tiltan School of Design and Visual Communication) decidiu que o seu universo surrealista precisava de uma mutação completa.

Lançado originalmente em 2021, o primeiro GRIME conquistou uma legião de fãs fervorosos com sua mistura de exploração metroidvania, um mundo anatômico feito de pedras e um combate focado de forma quase sádica no sistema de parry (aparar golpes). Agora, GRIME 2 chega não apenas para expandir essa fundação, mas para subvertê-la. Com uma campanha que beira as 30 horas de duração — praticamente o dobro do seu antecessor —, o título abandona a escuridão monocromática em favor de um show de horrores vibrante, colorido e profundamente perturbador.

A paleta de cores da podridão

A primeira e mais impactante mudança que GRIME 2 joga no rosto do jogador é a sua direção de arte. O jogo original era opressivo de uma maneira muito específica: tudo parecia ser moldado a partir de rocha, calcário e sombras, criando um mundo escuro e uniforme. A sequência, por outro lado, injeta vida e cores vibrantes nesse universo, mas o faz através de uma lente macabra. É o que podemos chamar de “as cores da podridão”.

O cenário agora brinca com altos contrastes e conceitos artísticos surreais que parecem ter saído diretamente de um quadro de Salvador Dalí fundido com a mente de H.R. Giger. Em vez de enfrentar paredes de pedra vivas, você se verá caminhando por um bosque sombrio formado por dedos gigantescos, apenas para ser emboscado por uma aranha grotesca feita inteiramente de mãos decepadas, cujas unhas compridas estão pintadas de um vermelho vivo e brilhante.

É um pesadelo corporal e visual fascinante. O jogo frequentemente faz você parar e se perguntar: “Por que diabos isso está aqui?”. Encontrar uma marionete de ares da realeza presa em uma laje de pedra gigante, amarrada por correntes industriais, gera um choque estético maravilhoso. A Clover Bite abandonou a coesão geológica do primeiro jogo para abraçar o caos das formas híbridas, criando um mundo que é infinitamente mais interessante de se observar e explorar.

O Informe: Moldando a própria existência

A narrativa de GRIME 2 continua a ser contada muito mais através do ambiente, da atmosfera e do level design do que por diálogos expositivos tradicionais. Neste novo pesadelo, você assume o controle do “Formless” (O Informe) — uma criatura semelhante a um mímico, que nasce neste mundo inóspito movida por uma fome insaciável de consumir uma essência vital conhecida como Breath (Fôlego) ou Force (Força).

O seu personagem é um ser mutável, uma verdadeira esponja ambulante capaz de absorver a essência, a saúde e as habilidades físicas daqueles que derrota. A história não o trata como um herói predestinado, mas sim como uma força da natureza tentando encontrar o seu espaço em um ecossistema hostil.

Para aumentar a sensação de isolamento e surrealismo, o Informe é um protagonista estritamente silencioso, comunicando-se apenas através de textos curtos de interface. Em contrapartida, o mundo ao seu redor “fala” o tempo todo, mas os NPCs e inimigos se comunicam através de murmúrios e dialetos ininteligíveis. É uma escolha de design que reforça a ideia de que você é um alienígena até mesmo dentro desse mundo já bizarro.

A dança da morte: Parry, Absorção e a gestão de Força

Se a arte mudou drasticamente, o combate mantém as suas raízes firmemente cravadas no solo do primeiro jogo, mas com ramificações muito mais profundas. No seu cerne, GRIME 2 continua sendo um Metroidvania implacável com uma curva de aprendizado íngreme. Você tem o seu pacote padrão de plataformas difíceis, áreas para desbloquear e inimigos menores para trucidar enquanto explora o mapa interconectado.

No entanto, o combate real orbita em torno de uma única e divisiva mecânica: o parry (o ato de aparar o golpe inimigo no milissegundo exato). Assim como no primeiro jogo, desviar passivamente não é a resposta ideal. Você precisa enfrentar o perigo de frente, usar a sua habilidade de absorção no tempo perfeito para negar o dano inimigo e contra-atacar com fúria.

É impossível negar que existe uma exaustão crescente no mercado em relação aos jogos que adotam a filosofia do “dê parry ou morra”. Contudo, GRIME 2 refina esse sistema de maneira brilhante. Como o Informe é capaz de absorver habilidades inimigas temporariamente, o jogo entrega um leque de opções ofensivas infinitamente maior do que o seu antecessor. Se você odeia ser refém do tempo de reação de uma defesa perfeita, o jogo oferece dezenas de novas habilidades e construções de personagem (builds) que te permitem jogar de forma mais ágil, agressiva e criativa. O parry continua sendo a chave de ouro, mas agora existem outras ferramentas no seu cinto para arrombar a porta.

A grande novidade mecânica que dita o ritmo dos confrontos é a introdução do sistema de Force (Força). Trata-se de um medidor de poder que cria um gerenciamento de risco e recompensa fantástico. Se você jogar de forma defensiva e mantiver o medidor cheio, seus ataques básicos causarão muito mais dano. Porém, ao gastar essa Força, você ganha liberdade de movimentação absurda e a capacidade de usar ataques especiais devastadores. O combate passa a ser uma dança constante entre acumular poder para bater pesado ou queimar tudo em frenesi para limpar a tela.

Um concerto clássico no fim do mundo

Para acompanhar o abandono do tom monocromático e a adoção de um mundo mais vibrante e caótico, a equipe de áudio e música de GRIME 2 tomou decisões brilhantes. O design de som reforça violentamente o impacto de cada golpe absorvido e cada esquiva perfeita, mas é a trilha sonora que rouba a cena.

Em total contraste com a bizarrice visual e os monstros formados por unhas, dedos e dentes, a música é surpreendentemente limpa, clássica e, por vezes, celestial. Ela flutua sem esforço entre a leveza de violinos suaves e vocais aéreos durante a exploração, e mergulha em arranjos pesados e densos de pianos fúnebres e metais (instrumentos de sopro) quando as monumentais batalhas contra os chefes têm início.

Essa justaposição — lutar contra atrocidades corporais enquanto ouve uma orquestra clássica impecável — cria uma atmosfera de “teatro trágico” que é simplesmente inesquecível. Como o mundo ao seu redor balbucia coisas sem sentido, é a trilha sonora a verdadeira responsável por ditar a carga emocional da sua jornada de 30 horas.

Considerações finais

GRIME 2 é o raro exemplo de uma sequência que entende perfeitamente o que a tornou especial no passado, mas tem a coragem de destruir a própria fundação para construir algo muito maior e mais complexo por cima.

A Clover Bite poderia ter jogado seguro, entregando apenas novos mapas com as texturas de pedra do primeiro jogo. Em vez disso, eles triplicaram a aposta, oferecendo uma campanha massiva que dobra a duração do original, inunda a tela com um espetáculo de body horror colorido e aprofunda mecânicas de RPG para dar aos jogadores mais liberdade tática no combate punitivo.

Se você não tem a menor paciência para jogos focados em aparar golpes (parry) ou desanima diante de chefes que exigem mortes repetidas até a memorização de padrões, GRIME 2 certamente testará os seus limites de frustração. No entanto, para os órfãos de Metroidvanias sombrios que buscam um mundo interconectado fascinante e um combate incrivelmente recompensador, esta é uma obra de arte bizarra que merece ser pendurada (e absorvida) com louvor.


Pontos Positivos

  • Direção de arte sublime: A mudança do mundo de rochas para um cenário vibrante, colorido e de alto contraste focado no grotesco (body horror) é fantástica.
  • Sistema de combate refinado: A mecânica de parry (absorção) continua sendo a estrela, mas a nova barra de Força e as novas habilidades dão mais liberdade e opções ao jogador.
  • Tamanho e escopo: Com cerca de 30 horas de campanha, o jogo dobra a duração do primeiro título sem parecer inchado ou repetitivo.
  • Trilha sonora primorosa: Os arranjos clássicos, com uso intenso de violinos e metais, criam um contraste maravilhoso com a brutalidade visual do jogo.

Pontos Negativos

  • Barreira de entrada do combate: Apesar de estar mais flexível, a filosofia do “domine o parry ou sofra” ainda dita o ritmo e pode frustrar jogadores que preferem desviar ou atacar freneticamente.
  • Narrativa excessivamente críptica: A escolha por NPCs que falam idiomas ininteligíveis e o foco exagerado em “narrativa ambiental” tornam a história difícil de acompanhar para quem não quer ficar juntando as peças do quebra-cabeça do lore.

GRIME 2 recusa o conforto da mesmice, entregando uma sequência massiva, grotescamente bela e mecanicamente profunda que consolida a franquia no topo do gênero Metroidvania.

Plataforma: PC.

A key da análise de GRIME 2 foi gentilmente cedida pela publisher para o 240pixels.

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