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Review: SOMA – Um mergulho filosófico no horror da consciência

Desde que a Frictional Games se tornou sinônimo de horror psicológico com Amnesia: The Dark Descent, muitos esperavam que o estúdio repetisse a dose com sustos ainda mais elaborados. Mas SOMA, relançado no Nintendo Switch 2 com o apoio técnico da Abylight Studios, não busca apenas assustar — ele propõe um tipo diferente de terror: o existencial. E acredite, este pode ser muito mais difícil de encarar do que qualquer monstro em um corredor escuro.


Não é sobre sobreviver, é sobre compreender

SOMA parte de uma premissa aparentemente simples: Simon, um homem comum lidando com um trauma cerebral, realiza um experimento médico e acorda em um laboratório submarino décadas no futuro. Mas essa introdução, embora pareça só um gancho sci-fi, logo se revela uma armadilha para o jogador: não estamos prestes a encarar apenas criaturas assustadoras, mas sim dilemas éticos profundos e questionamentos sobre o que significa estar vivo.

A narrativa, centrada na estação submarina Pathos-II, se destaca por sua maturidade. Os diálogos entre Simon e Catherine (uma inteligência digitalizada) abordam clonagem da consciência, transferências mentais e o conceito de identidade com uma seriedade incomum para jogos do gênero. Em vez de oferecer apenas um final chocante, SOMA constrói uma espiral de descobertas que transforma cada passo em uma reflexão perturbadora.


Gameplay com tensão contida, mas propósito narrativo elevado

Quem espera um “survival horror” tradicional pode se surpreender. SOMA não entrega combate direto — não há armas, upgrades ou sistema de crafting. Aqui, o foco está em se manter escondido, entender o ambiente e seguir adiante, muitas vezes enfrentando inimigos em seções de stealth que exigem calma e escuta atenta. Os encontros com as criaturas variam entre o memorável e o morno: alguns inimigos realmente assustam, mas outros parecem mais obstáculos de ritmo do que ameaças reais.

Isso, porém, nunca compromete a proposta central. A jogabilidade é construída como um apoio para a narrativa. Desde pequenos quebra-cabeças ambientais até o uso do OmniTool (um dispositivo multifuncional que funciona como chave, interface e hub de dados), tudo reforça a sensação de estar participando de algo maior. O design minimalista dos quebra-cabeças, que envolvem conexões elétricas, ativação de módulos e manipulação de sistemas antigos, cria uma imersão silenciosa e eficaz — como se cada botão pressionado fosse parte de uma simulação de rotina abandonada.


Atmosfera e design: uma cápsula de desespero submersa

O mérito de SOMA está também em sua ambientação. Mesmo quase uma década após seu lançamento original, o design de ambientes da Pathos-II continua atual. As seções internas da estação alternam entre áreas clínicas, corredores decadentes e salas técnicas cheias de ruídos metálicos, criando uma identidade visual que equilibra frieza científica e decadência orgânica. Já os trechos em mar aberto — caminhando lentamente pelo fundo do oceano — transmitem isolamento absoluto, ainda que por vezes sejam um pouco vagos em termos de direção.

O relançamento no Nintendo Switch 2 garante texturas mais limpas, efeitos de iluminação aprimorados e estabilidade geral. É um título que roda sem tropeços, mesmo com seus ambientes mais densos. Não há loading abrupto entre áreas, e o som 3D ajuda a compor a sensação de estar sendo observado, mesmo quando não há nada por perto.


Humanidade em ruínas — e consciência em debate

Uma das grandes virtudes de SOMA está nos detalhes opcionais. A leitura de e-mails antigos, gravações dos tripulantes e logs de missão permite traçar um retrato melancólico da queda da civilização e da solidão dos últimos humanos. Esses elementos não são jogados gratuitamente: conhecer quem eram essas pessoas, e o que tentaram preservar, torna algumas decisões mais dolorosas. Há momentos em que o jogador é convidado a “desligar” consciências artificiais que ainda acreditam estar vivas — e cada uma delas apresenta argumentos perturbadoramente válidos para continuar existindo.

Enquanto outros jogos oferecem múltiplos finais como uma lista de opções, SOMA oferece finais como reflexo das suas crenças. Nenhuma resposta é confortável, e nenhuma escolha parece certa — e é justamente esse desconforto que faz o jogo permanecer com você dias depois.


Conclusão: um dos horrores mais humanos já feitos

SOMA não é um jogo para todos. Não é ágil, não tem combate, e sua proposta está mais próxima de uma experiência interativa filosófica do que de um festival de sustos. Mas para quem aprecia narrativas maduras, dilemas morais bem construídos e uma atmosfera sufocante em todos os sentidos, o título continua sendo uma obra-prima — e sua chegada ao Switch 2 é um convite para redescobri-la com os olhos (e a mente) mais atentos.


Prós:

  • Roteiro profundamente reflexivo e emocional
  • Atmosfera envolvente, tanto visual quanto sonora
  • Temas existenciais tratados com maturidade
  • Ambientação subaquática única e memorável
  • Excelente adaptação técnica para o Switch 2

Contras:

  • Inimigos com inteligência artificial inconsistente
  • Falta de orientação em ambientes externos pode frustrar
  • Rejogabilidade limitada após conhecer a história

Disponível para: Nintendo Switch 2, PC, Xbox e PlayStation.
Desenvolvido por: Frictional Games
Publicado por: Abylight Studios (versão Switch 2)
A chave foi gentilmente cedida para análise no 240Pixels.

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