Se você é um veterano dos videogames, o nome Madou Monogatari pode soar familiar. Trata-se da histórica franquia de RPGs de masmorras que, nos anos 90, acabou dando origem ao gigante fenômeno dos quebra-cabeças Puyo Puyo. Após um longo período adormecida, a série foi resgatada pela Compile Heart e pela Idea Factory, retornando aos holofotes modernos com Madou Monogatari: Fia and the Wondrous Academy.
Mas será que o resgate de uma mecânica tão clássica consegue se sustentar no exigente mercado atual, ou o título depende exclusivamente da nostalgia? Vestimos a nossa melhor túnica mágica, caldeirão em mãos, e fomos desbravar os corredores dessa academia.

O peso da varinha: A rotina da Academia
A narrativa nos coloca na pele de Fia, uma jovem e otimista estudante que sonha em se tornar uma Grande Maga. Para isso, ela ingressa na prestigiada Ancient Magic Academy (Academia de Magia Ancestral). A premissa é leve, colorida e foca fortemente no humor característico dos jogos com estética anime.
O grande acerto do jogo é não prender o jogador exclusivamente dentro de cavernas escuras. O título divide o seu ritmo de forma muito inteligente entre a exploração e a vida acadêmica. Quando você não está lutando pela sua vida, está na cidade ou nos corredores da escola interagindo com um elenco excêntrico de colegas de classe. Essas interações sociais são fundamentais para o desenvolvimento da história e quebram a monotonia que costuma assombrar o gênero de dungeon crawlers.

Além disso, a Academia oferece uma série de minigames divertidos e a clássica (e icônica para a franquia) mecânica de cozinhar curry. Preparar pratos de curry utilizando os ingredientes que você encontra pelas masmorras não é apenas um passatempo; é um sistema tático robusto que concede melhorias temporárias (buffs) vitais para os atributos de Fia antes das próximas expedições.
Labirintos, Magia e Aleatoriedade
Quando o sinal da escola toca e é hora da ação, Madou Monogatari mostra a sua verdadeira essência. A exploração foca em masmorras geradas aleatoriamente (randomized dungeons). Isso significa que o layout dos corredores, a posição dos baús de tesouro e a localização dos inimigos mudam a cada nova visita.
O combate exige um bom planejamento. O jogador precisa dominar o uso das Magic Artes (Artes Mágicas) de Fia, descobrindo as fraquezas elementais dos inimigos e gerenciando com cuidado os seus recursos. A curva de dificuldade é bem desenhada: as primeiras masmorras funcionam como um excelente tutorial prático, mas logo o jogo solta a sua mão e pune severamente os jogadores que entram em labirintos profundos sem terem preparado os seus feitiços e o seu curry com antecedência.

Estética Anime e a Maldição da Repetição
No departamento audiovisual, o título entrega exatamente o que os fãs da Compile Heart esperam. O design de personagens (em 2D durante os diálogos) é vibrante, muito bem ilustrado e esbanja carisma, com uma dublagem japonesa excelente que ajuda a dar vida às personalidades exageradas dos estudantes.
No entanto, o jogo tropeça onde muitos dungeon crawlers costumam cair: a repetição visual dos ambientes tridimensionais. Devido à natureza procedural (gerada aleatoriamente) das masmorras, os corredores e as texturas das paredes começam a parecer excessivamente iguais após algumas dezenas de horas. O level design carece de pontos de referência visuais fortes, o que pode causar uma leve fadiga estética em sessões de jogo mais longas.

Considerações finais
Madou Monogatari: Fia and the Wondrous Academy é um retorno muito bem-vindo e seguro para uma franquia que fez história. A Compile Heart acertou em cheio ao modernizar o ritmo de jogo, intercalando os tensos corredores aleatórios com o charme reconfortante da vida escolar e da culinária tática.
Embora a repetição visual das masmorras possa cansar os jogadores menos pacientes, os fãs de RPGs orientais e exploradores de labirintos encontrarão aqui um prato cheio (de curry, de preferência) com sistemas mágicos engajantes e uma protagonista incrivelmente carismática. É uma excelente aula de magia que vale a pena ser assistida.
Pontos Positivos
- Balanço de Ritmo: A divisão entre a vida na academia (história e interações) e a exploração pura evita que o jogo se torne maçante.
- Sistema de Curry: Cozinhar para ganhar melhorias (buffs) é criativo, nostálgico para a série e taticamente relevante para o sucesso nas masmorras.
- Carisma e Arte: O elenco de apoio é divertido e as ilustrações em 2D durante os diálogos possuem um acabamento excelente.
- Combate Mágico: O sistema de progressão das Magic Artes e a necessidade de explorar fraquezas inimigas mantêm os combates interessantes.
Pontos Negativos
- Fadiga Visual: As masmorras geradas aleatoriamente possuem texturas e layouts muito repetitivos, faltando variedade aos ambientes 3D.
- Nicho Específico: Jogadores que não apreciam o estilo cadenciado de dungeon crawlers ou o excesso de diálogos no formato de visual novel podem se afastar.
Madou Monogatari: Fia and the Wondrous Academy resgata o charme do passado e adiciona uma pitada de tempero escolar, entregando um dungeon crawler sólido e incrivelmente charmoso.
Plataformas: PC (Steam), PlayStation 4, PlayStation 5 e Nintendo Switch.
A key da análise foi gentilmente cedida pela Idea Factory International . O nosso muito obrigado à publisher pela parceria de sempre.