Em um mundo onde toda a cor foi arrancada da existência, o vazio não é apenas visual: ele é emocional, simbólico e narrativo. 9 Years of Shadows constrói sua identidade a partir dessa ausência, colocando o jogador no papel de Europa, uma jovem que carrega o peso de nove anos de decadência, solidão e esquecimento. Não há grandes discursos heroicos ou explicações excessivas. O jogo confia na ambientação, no design e na jogabilidade para contar sua história — e isso faz toda a diferença.
Desde os primeiros minutos, fica claro que estamos diante de uma obra que olha com carinho para o passado, mas que tenta dialogar com o presente. O resultado é um metroidvania que aposta mais na sensação de descoberta constante do que em revoluções estruturais, mas que executa sua proposta com segurança e personalidade.

Um mundo sem cor, mas cheio de identidade
Visualmente, 9 Years of Shadows é um espetáculo para quem aprecia pixel art trabalhada com intenção. A estética retrô não é apenas um filtro nostálgico: ela faz parte da narrativa. A ausência de cores no mundo inicial reforça o sentimento de decadência e torna cada nova tonalidade recuperada algo significativo, quase emocional.
O design dos cenários remete diretamente aos clássicos dos anos 90, com áreas interconectadas, caminhos bloqueados por habilidades ainda não adquiridas e mapas que exigem atenção e memória do jogador. Não há excesso de marcadores ou indicações explícitas, e isso fortalece a imersão. Aqui, explorar é um aprendizado ativo, não um passeio guiado.
Combate simples na superfície, profundo na prática
Se há um ponto onde 9 Years of Shadows realmente se destaca, é no combate. À primeira vista, o sistema parece direto: ataques leves, ataques pesados e habilidades especiais. No entanto, à medida que novas mecânicas são introduzidas, tudo começa a se conectar de forma inteligente.
A habilidade de proteção e energia, concedida logo no início, funciona como um eixo central da jogabilidade. Ela não serve apenas como defesa, mas também como recurso ofensivo, criando um gerenciamento constante de risco e recompensa. Atacar, defender, recuperar energia e escolher o momento certo de agir se tornam decisões estratégicas, mesmo em confrontos aparentemente simples.

O ritmo do combate é ágil, e raramente o jogo entra em um estado de repetição cansativa. Cada inimigo exige atenção, posicionamento e, em muitos casos, adaptação de estratégia — algo reforçado por um sistema de bestiário que oferece informações úteis sobre os adversários, incluindo fraquezas e características específicas. É um detalhe que enriquece o gameplay e adiciona uma camada tática pouco comum no gênero.
Progressão orgânica e level design eficiente
O level design de 9 Years of Shadows é claramente inspirado nos grandes nomes do metroidvania, mas consegue manter coerência própria. As áreas são construídas para incentivar o retorno, o reconhecimento espacial e a experimentação com novas habilidades. Nada parece jogado de forma aleatória: cada trecho do mapa dialoga com a progressão do jogador.
As habilidades adquiridas não servem apenas para combate, mas também para exploração, ampliando as possibilidades de movimentação e acesso a áreas antes inalcançáveis. Esse equilíbrio entre ação e exploração mantém o ritmo do jogo sempre ativo, evitando longos períodos de estagnação.

Um tributo que joga seguro demais?
Apesar de todas as qualidades, é impossível ignorar um ponto: 9 Years of Shadows raramente arrisca. Ele executa muito bem ideias já consagradas, mas traz poucas inovações realmente marcantes. Isso não compromete a experiência, mas faz com que o jogo se destaque mais pela competência do que pela ousadia.
Para alguns jogadores, isso pode ser visto como uma virtude — um metroidvania sólido, bem construído e respeitoso com suas inspirações. Para outros, pode deixar a sensação de que faltou um passo além, algo que o diferenciasse de forma mais contundente dentro de um gênero tão concorrido.
Considerações finais
9 Years of Shadows é uma experiência cuidadosamente construída, que entende profundamente o legado que carrega. Ele não tenta reinventar o metroidvania, mas sim celebrar sua essência com uma apresentação visual forte, um combate envolvente e um mundo que recompensa a curiosidade.
Mesmo sem grandes inovações, o jogo conquista pelo conjunto da obra e pela forma como une narrativa, jogabilidade e estética em uma experiência coesa. Para fãs do gênero e apreciadores de jogos com alma retrô, é uma jornada que vale a pena ser vivida — e que, pouco a pouco, devolve a cor a um mundo que parecia perdido.
Pontos positivos
- Pixel art belíssima e cheia de identidade
- Combate fluido, estratégico e recompensador
- Level design eficiente e bem integrado à progressão
- Sistema de bestiário que enriquece o gameplay
Pontos negativos
- Pouca inovação em relação a outros metroidvanias
- Estrutura muito segura para quem busca algo realmente novo
Plataformas: PC, PlayStation, Xbox e Nintendo Switch
Key cedida para análise